https://veredapopular.org/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Audio-2022-09-08-at-18.54.47.ogg?_=1

O povo chileno, em plebiscito, domingo dia 4/9/2022, com presença obrigatória e participação maciça dos eleitores – 11 milhões –, rejeitou, por esmagadora e insofismável diferença de quase dois por um, a propositura de nova constituição. Com 99,99% das urnas computadas, o rechazo estava em 61,86% e o apruebo em 38,14%. Deu-se uma emblemática reversão das expectativas, mas não a surpresa total: o resultado já fora previsto em pesquisas de opinião, embora com diferenças menos superlativas. Na prática, os cidadãos preferiram manter a Carta egressa do regime ditatorial e remendada, uns permanentemente, outros na esperança espontânea de forçar uma redação mais próxima do anseio majoritário, isto é, capaz de gerar um consenso em torno das questões basilares.

Há um contraste que de pronto se mostra, qual lua cheia no céu limpo: de 2019 a 2020, o comprido país entre a Cordilheira dos Andes e o Pacífico Sul assistiu a gigantescas manifestações de massas por reivindicações justas e sentidas. O Estalido Social, duramente reprimido, teve um caráter claramente oposicionista e chegou às raias de uma situação revolucionária. No entanto, em menos de um ano, mesmo alcançando importantes vitórias no sufrágio – 78,28% no plebiscito sobre a instauração do processo constitucional, controle de 75% das cadeiras pelos setores progressistas e predomínio eleitoral sobre a extrema-direita com a escolha do candidato à esquerda para presidente –, agora sofre um brusco e duro revés. Por que aconteceu tamanha metamorfose na correlação de forças?

Conforme lendas remontantes à civilização micênica, uma Esfinge – com asas de pássaro, corpo de leão e face de mulher – guardava em Tebas o pórtico principal. Expunha enigmas para quem pretendesse adentrar na Cidade – logo, no domínio estatal – e matava os incapazes de resolvê-los: “Decifra-me ou te devoro!” Todavia, jogou-se no precipício ao ter sido vencida mediante a réplica do sagaz Édipo, no drama por Sófocles perenizado e na Poética por Aristóteles citado. A metáfora serve para representar o tentame humano de se apropriar da realidade, universal e inerente à práxis, para efetivar teleologias, inclusive na luta política de classes. Após a derrota, fica o enigma que os revolucionários precisam decifrar, sob a pena de serem devorados pela recomposição conservadora.

O que provocou, em poucos meses, a inversão? Causas, meramente, objetivas? Simples mudanças indeterminadas na subjetividade geral? Se não, quais equívocos de partidos, grupos e movimentos influentes à esquerda, também do governo central, os distanciaram dos anseios populares? O primeiro passo, para reverter a derrota, é recusar os queixumes fáceis, alguns de comovente ingenuidade: o peso dos setores direitistas, os influxos da mídia burguesa, o teor intimidatório da campanha contrária, o desgaste no prestígio do primeiro mandatário, a crise do sistema partidário e a inexperiência da população tangida compulsoriamente a votar. Tudo isso é verdade, mas nenhum desses fatos, nem todos juntos, pode ser arguido para substituir a concepção e a consubstanciação políticas.

Tais objetividades necessitam ser usadas não para lamúrias, mas como alicerces ônticos das elaborações, gerando mediações táticas em cada conjuntura, indispensáveis para isolar os inimigos, neutralizar os segmentos intermediários e coerir as classes ou camadas que formam o Bloco Histórico. Trata-se de agir como sujeito coletivo, que – na realidade, posta e interiorizada como valor sensível ou ideologia consciente – formula e pratica uma busca produtiva. Já que a finalidade imediata no contencioso, por suposto, era tecer uma Constituição democrática, progressista e passível de aprovação no referendo, seria irrecorrível a união em torno de reformas centrais, cujos conteúdos e formas favorecessem a disputa política entre as massas e a consecução de novo revés à reação.

Prevaleceu, porém, outra conduta. Exprimindo gestos, vocabulários e sintaxes dos círculos temáticos e seu ativismo, a polarização e o texto constituintes reproduziram o fragmentado mosaico dos ângulos particularistas pelos quais as identidades foram tratadas. Sem um comando centralizado, a defesa das reformas-chave restou submersa e cedeu protagonismo à multiplicidade social-liberal de conceitos, pleitos e costumes. Assim, alçaram-se as contradições no seio do povo à categoria de antagonismos principais. Os cidadãos, portanto, não votaram contrariamente às garantias fundamentais, à soberania do País, às riquezas nacionais, à desprivatização dos aquíferos, aos direitos laborais, às mudanças no monopólio fundiário e aos serviços estatais – a saúde, previdência, educação.

Pronunciaram-se de fato contra os imperativos morais impostos por nichos identitaristas que, naquele momento específico, jamais poderiam ter o condão mágico de unir as massas populares no patamar exigido para vencer a ultraconservação e a orfandade pinochetista. Bem que Lênin alertou que a verdade, na política, é sempre concreta. Encontrar novos caminhos é tarefa do proletariado e das forças transformadoras chilenas. Cabe às oposições brasileiras evitar o mesmo tropeço, pois aqui também há Esfinges, com seus mistérios e reptos. Uma se anunciou no Bicentenário da Independência, mormente na quarta-feira, dia sete, quando foi largado à demagogia bolsonarista – desde o seu nascimento, entreguista e antipatriótica – o monopólio sobre a questão e as cores nacionais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *