Por José Genoino Neto*—
Originalmente publicada em forma de Prefácio ao livro autobiográfico Parangaba, a Luta como Destino – subtítulo Memórias de um Combatente: O Tempo não Apagou Seu Nome –, Fortaleza, Expressão Gráfica Editora, 2024.
Mas Parangaba não era homem de um nome só. E esses três nomes, Parangaba, Carlos Augusto Lima Paz e Cardoso se materializam, se concretizam em várias experiências pelo Brasil afora. Da fuga de Fortaleza em 64. A tentativa de entrar em Cuba. A deportação de Cuba para o Brasil de uma maneira dramática, de uma uma verdadeira epopeia e do início de uma clandestinidade, do retorno gradual à democracia e novas liberdades.
Aos poucos a imagem ganha novos rumos com o passar do tempo. A verdade é que há uma biografia que me confunde, é a do Parangaba, é a do Carlos Augusto ou é a do Cardoso? Essa é a biografia que documenta uma trajetória em várias regiões do país, em regiões da Bahia, do Espírito Santo, do Mato Grosso, de Minas Gerais, até se fixar na região norte do país, particularmente em Manaus e depois no Acre. Essa história tem momentos de contato político com os principais acontecimentos que marcam a história do Brasil nesses 60 anos após o golpe de 64. Há a sobrevivência, a resistência na clandestinidade, uma clandestinidade que não era fuga, era pra continuar resistindo, pra continuar a luta, pra continuar ajudando aquele processo de sobrevivência e resistência à ditadura militar, e ao mesmo tempo, uma clandestinidade muito criativa, muito dinâmica pois sobrevivia à repressão, e permitia um contato muito estreito com a população.
Em meio a todas as experiências se materializa o então Parangaba, que depois vira Cardoso e depois vira Carlos Augusto. É uma caminhada marcada pela facilidade de contato, de ligação, de convite, de vivência com a população por onde ele andava. É como se ele fosse o peixe na água, esse peixe disposto a se adaptar, a dialogar com populações desconhecidas e diferenciadas. Ora era Nordeste, ora era o Centro-Oeste, depois era o Norte, até a chegada na imagem do Parangaba. Essa dedicação e essa facilidade de uma adaptação extremamente criativa foi o que garantiu sua sobrevivência durante todo o período da ditadura militar e na transição da ditadura para a democracia liberal, em que o nome Cardoso passa a ser um nome legalizado.
Passa a vir outra imagem, outra caminhada, com formatura na universidade, com recursos adquiridos em nome de Cardoso e com a própria filiação ao Partido dos Trabalhadores e disputa pela Prefeitura de Rio Branco em 1985. É em meio a essa caminhada que eu encontro com o Parangaba, percorrendo a história do Brasil durante fases variadas: nos anos de chumbo da ditadura, nos anos do terrorismo de Estado, nos anos de abertura lenta, gradual e segura. E é assim, nos anos da vitória da democracia, na campanha das diretas, que se afirma a luta de Parangaba para voltar à sua origem, voltar ao seu nome verdadeiro, que é exatamente Carlos Augusto Lima Paz.
Mas é difícil habituar-se ao novo nome e pensar nisso me evoca novas lembranças. Ao sair da prisão, em 1977, eu inicio a minha militância na reestruturação da UNE, nos movimentos de debate no Partido Comunista do Brasil sobre a Guerrilha do Araguaia e num movimento para a formação do PT, e é nessa nova empreitada que eu reencontro o Parangaba. Era uma situação bem típica, uma agenda em Manaus, na Livraria Zapata e surge uma solicitação de uma pessoa que quer se encontrar comigo, isoladamente. Aí aparece ele dizendo: “Eu sou o Cardoso, pra você eu sou o Parangaba, mas eu tô te informando que meu nome aqui em Manaus é Cardoso.”
É essa a figura que sobrevive com vários nomes. Alguém de uma criatividade, de uma naturalidade, de uma simplicidade que fazia a gente até se assustar. Era alguém de uma facilidade enorme em viver naqueles tempos duros, tanto da ditadura terrorista do período Médici como no processo de transição lenta, gradual e segura. É sempre marcante encontrar essa figura que nunca deixou de lutar, nunca deixou de militar, nunca deixou de estar participando dos principais acontecimentos políticos do país. É assim quando entra na universidade em Manaus com o nome de Cardoso, se desloca a Rio Branco e é candidato a prefeito pelo PT, que é quando a gente se reencontra, na construção do Partido Revolucionário Comunista.
Nessa mesma empreitada é que eu vou encontrar com figuras emblemáticas da história política brasileira, como Chico Mendes, Marina Silva, a partir das indicações das relações do então agora Cardoso, sempre Parangaba. É nessa experiência que eu visito o Acre duas vezes, em meio à construção do PT, no trabalho feito pelo Chico Mendes e na articulação da Diocese do bispo Moacir Crech, da Prelazia do Acre Purus.
Em meio a tudo isso surgem os comentários, as informações, as repercussões de uma pessoa que era muito capaz, muito inteligente, protagonista. Mas era o protagonista sem aparecer. Parece que a clandestinidade deu essa característica a ele, então eu entendo que esse relato detalhado sobre a vida do Carlos Augusto Lima Paz, nome de batismo que ele recupera, é algo muito interessante a se analisar.
É uma trajetória, ouso dizer até uma epopeia, de uma liderança que viveu, sobreviveu, resistiu e continua como uma militância revolucionária, transformadora, socialista nos dias de hoje. Viveu as experiências dramáticas do início do governo Lula nos anos de 2003, 2004 até Dilma 2016. Viveu as experiências dos debates dentro da esquerda, com divergências, mas sempre com consciência de saber qual era o lado que estava. É essa história que está presente de forma precisa no livro sobre a sua vida, “Memórias de um Combatente”.
O tempo não apagou o seu nome. Quer dizer, na verdade, os vários nomes que se colocaram para o Carlos Augusto Lima, Parangaba, Cardoso e outros nomes de um período de vida menor. Os nomes deram dimensão a uma militância política muito forte. Eu guardo do Parangaba, do Cardoso e do Carlos Augusto Lima Paz uma relação além da amizade, uma relação de companheirismo, de camaradagem e de ter discutido todos os embates, os impasses que a gente viveu ao longo desse período de 60 anos do golpe. Ora era a imagem, ora era o contato, ora era o debate.
Essa história do homem e seus nomes é uma história que precisa ser conhecida, porque reflete uma experiência que é inédita. Conhecemos os companheiros e companheiras que foram exilados ou presos, mas não a história do Parangaba, que sobreviveu na clandestinidade, com um novo nome, sem nunca ter sido identificado. A experiência de uma pessoa que andou pelo Brasil inteiro em várias regiões, particularmente no Acre, que foi onde trabalha, se aposenta como agrônomo, como funcionário do Incra e onde ele se candidata e constrói boa parte da sua vida. Seus nomes não se apagam nessa militância combatente, heróica, abnegada, criativa, que está muito bem retratada no livro que eu estou tendo a honra de prefaciar e recomendar a leitura.
Essa é uma experiência fundamental na história da esquerda brasileira de sobrevivência. Não é a experiência daqueles que foram presos, daqueles que foram torturados, daqueles que ficaram no exílio. É a experiência daqueles que sobreviveram numa clandestinidade.
E quem é o homem de hoje? É o personagem e seus nomes, que continua com a mesma consciência daquele jovem que eu conheci nas praças do Liceu do Ceará, subindo em palanques, subindo em ônibus, subindo em tamborete para fazer grandes comícios que mobilizavam os estudantes secundaristas do Ceará. Então, esse livro do Parangaba, do Cardoso e do Carlos Augusto, mostra uma trajetória, uma luta, uma vida, de alguém que se dedicou à construção de uma alternativa transformadora para o país, e que se coloca de maneira necessária, de maneira imperiosa, para que, com as experiências do passado, a gente olhe o futuro que desejamos construir.
* José Genoino Neto, ex-diretor da UNE e sobrevivente na Guerrilha do Araguaia, foi presidente do PT e deputado federal por seis mandatos, inclusive durante a Constituinte.
