Por John Kennedy Ferreira—
Introdução
“Habita uma cabana miserável.
Come pouco.
Cai enfermo de impaludismo, e este homem delgado, pálido, pobre,
é a esperança e a força do povo brasileiro!”
OCTÁVIO BRANDÃO.
No dia 11 de novembro de 1925, a Coluna Prestes partindo de Porto Nacional (hoje Tocantins) adentra o Maranhão e é recebida em Carolina, Grajau e outras localidades do sul do estado com festa e cortejo. Ao contrário do que acontecia em outras partes do país, onde a Coluna era apresentada como medo, no Maranhão (e Piauí) a Coluna era um símbolo de esperança.
A saga da Coluna, que começara na junção da I Coluna da Revolução Paulista e da Rebelião Gaúcha de Santo Ângelo, funde-se em Catanduvas (PR) em fins de 1924 e dá-se início a sua gloriosa epopeia, que percorreu cerca de 25 mil quilômetros, treze estados, dois países, contou com um contingente inicial de 1.500 homens e um pouco mais de 4 dezenas de mulheres (as vivandeiras) e algumas crianças, participou de mais de 600 combates contra forças regulares do exército, polícias estaduais, jagunços e cangaceiros, saindo de todas vencedora , invicta!
Tornando-se um dos feitos militares e políticos mais importantes da história do Brasil e do mundo, referência a “Grande Marcha” de Mao Tse Tung e a muitos movimentos de libertação nacional.
Este pequeno trabalho foi apresentado em 21 de outubro de 2025, no XVIII Encontro Humanístico e faz parte de um capítulo maior que tenta abarcar a crise da República do ‘Café com Leite” até o golpe de Getúlio Vargas em 1937, com foco no Maranhão e suas lideranças políticas.
ANTECEDENTES
Conjuntura Mundial e Nacional
O mundo vivenciou entre 1914 e 1919 a I Grande Guerra Mundial, foi um espetáculo dantesco de destruição em massa. Durante a guerra os países europeus giraram a indústria a produção bélica e reduziram a produção de bens de consumo e alimentos; por sua vez, os países produtores como o Brasil viram suas receitas aumentarem em larga escala, a produção cresceu em mais de 50% e os lucros bem que dobraram (BANDEIRA, 1980. p.49) levando o importante líder político e empresarial Achilles Lisboa a propor em palestra, na poderosa Sociedade Agrícola Maranhense, que o trabalho deveria ser compulsório, para atender as demandas externas (LISBOA, 1918).
O término do conflito é acompanhado por uma crise geral do sistema capitalista, em especial, pela eclosão da Revolução Russa que pôs fim ao monopólio da produção capitalista, com isso aprofundou as contradições internas abrindo uma nova etapa na organização mundial.
Os países capitalistas centrais, vitoriosos ou não, conheceram movimentos sociais revolucionários influenciados pelo regime soviético, o que aterrorizou a burguesia mundial (SODRE, 1978).
Por seu lado, os países dependentes, que tiveram razoável saldo comercial durante o período bélico, veem a sua balança comercial comprimir, o Brasil segue a mesma toada, o fim da guerra vem acompanhado por uma grande crise econômica na década de 1920, com a redução do preço do café e a necessidade de contrair empréstimos estrangeiros para equilibrar a balança interna, isso vem acompanhado do aumento das importações e como consequência aumento da inflação e do custo de vida, levando a inquietações sociais.
A monocultura cafeeira via seus preços caírem e parte dos cafeicultores drenaram seus capitais para a nascente indústria. Este processo desencadeia e reforça os elementos deletérios dentro da estrutura do “Pacto dos Governadores” e a política do “Café com Leite”, levando ao fortalecimento da nascente burguesa industrial e a exigência de mudanças sociais.
Eleições de 1922 e o Nascimento do Tenentismo.
Os questionamentos se avolumam e convergem para eleições de 1922, o presidente Epitácio Pessoa, mesmo sendo paraibano, fora uma escolha das oligarquias paulistas e mineiras, fez um governo autoritário, uma ditadura disfarçada, que teve que enfrentar as greves operárias, a organização do proletariado no nascente PCB, o descontentamento das classes médias urbanas, a busca de espaços da nascente burguesia industrial, a inquietude dos artistas e produtores de cultura, a inconformidade dos militares e a dissidência e oposição de vários estados provinciais.
O núcleo do questionamento era a corrupção, o voto de cabresto e as fraudes eleitorais, a falta de um planejamento de desenvolvimento e reinvindicações de melhoria no ensino. O núcleo ideológico é um liberalismo radical. O ano de 1922, ano do centenário da independência, é um ano de expectativas de mudanças. (PRESTES, 1995)
A indicação Café com Leite do mineiro Arthur Bernardes para a sucessão de Epitácio Pessoa é contraposta pelas dissidências (gaúcha, fluminense, baiana e pernambucana) com Nilo Peçanha, compondo a chamada Reação Republicana. A campanha é marcada por forte tensão tendo como o centro a questão das Cartas Falsas.
Em 9 de outubro de 1921, no diário carioca oposicionista Correio da Manhã, são publicadas duas cartas supostamente escritas por Bernardes com ofensas a honra do Marechal Hermes da Fonseca e das Forças Armadas, os militares que estavam indispostos com o governo Pessoa, por conta do baixo soldo, subiram o tom com reuniões no Clube Militar e se engajaram na candidatura de Peçanha. Mesmo tendo sido provado que as cartas eram falsas, o estrago já estava feito.
Após a eleição de Bernardes, boa parte da sociedade se posiciona contrária à posse de seu governo, especialmente o baixo oficialato e a soldadesca. (SODRE 1978, PRESTES, 1995).
Dezoito do Forte de Copacabana e o Nascimento do Tenentismo
E eles foram lutar em campo aberto
O peito, não de ferro, mas de ralos
Pedaços de bandeira só coberto
Que torpeza insultá-los!
Poema de SCHAFFENBERG DE QUADROS.
As conspirações contra a posse, em 5 de julho, correm os quarteis, a intenção era clara: derrubar o governo e impedir a posse de Bernardes. Em 5 de julho é marcado um grande levante militar, mas na hora H só o Forte de Copacabana se sublevou.
O Forte de Copacabana é cercado por forças legalistas que exigem sua rendição incondicional, o Capitão Euclides Hermes da Fonseca, comandante da cidadela sitiada, é preso quando negociava com o governo. O Tenente Antônio Siqueira Campos, já sub ataque pesado de terra, mar e ar, dá o direito de escolha aos amotinados e declara que resistirá e lutará até o fim pelo ideal. Ficaram 18 que marcharam pela Avenida Atlântica rumo ao Catete, no caminho somou-se o estudante de engenharia Otávio Correa.
As forças legalistas, com mais de 2000 soldados, abrem fogo, só 2 sobreviveram: os tenentes Eduardo Gomes e Siqueira Campos, gravemente feridos. O governo declara estado de sítio e as prisões e a censura à imprensa foram amplamente realizadas.
Na sociedade uma comoção tomou conta do país, “os Dezoitos do Forte”, ganharam as páginas dos jornais e as conversas, sua rebeldia, seu idealismo, suas vidas e honra eram comentados por toda parte. Um pouco depois, em 29 de julho, foi decretada a prisão do presidente do Clube Militar, Marechal Hermes da Fonseca, por seu apoio velado ao levante da guarnição do Pernambuco.
A pose de Bernardes, em 15 de novembro, não refluiu a tensão e seu governo foi feito em estado de sítio e com forte perseguição aos opositores, fortaleceu a inquietação e as conspirações dos tenentes e demais opositores (PRESTES, 1995).
REVOLUÇÃO PAULISTA de 1924 – A Revolução Esquecida
Fala a metralha responde o canhão
Isidoro Lopes e quem vai ganhar a revolução (modinha popular)
Após a intervenção de Bernardes nos governos dissidentes de RS, PE e RJ e a perseguição implacável à Reação Republicana, o movimento tenentista trama uma nova rebelião, desta vez em São Paulo, segunda cidade do país, o maior parque industrial. São Paulo vivia a transição de uma pacata cidade para uma metrópole, naquele instante a metade da população era composta por imigrantes que tinham fugido da miséria europeia nos pós I Guerra. O plano contava com levantes em vários quarteis e a força pública estadual, que seriam acompanhados com sublevações em outros estados. Em 5 de julho acontece o levante, os quarteis militares e da força pública se rebelam, no início esperava-se que a capital fosse tomada em poucas horas, mas a resistência do governador Carlos Campos foi dura e só após 4 dias de combates recuou para a longínqua Penha. Lourenço Moreira Lima, que saiu do Rio de Janeiro para somar-se com os amotinados, relata o apoio espontâneo da população que comemorava a revolução, movimentos sociais como os sindicalistas e anarquistas pediram armas ao comandante da revolução, General Isidoro Lopes Dias, o que foi recusado.
Porém, conforme o cerco e o bombardeio das forças legalistas se multiplicavam, principalmente sobre os bairros e vilas operárias, e as escassez de alimentos aumentava, foram formados três batalhões estrangeiros recebendo o nome das maiores colônias migradas: o batalhão alemão, húngaro e italiano, que óbvio não eram compostos só por essas nacionalidades, por exemplo o italiano, contava também com portugueses, espanhóis, franceses e brasileiros. Esses batalhões tiveram papel importante nos combates, pois muitos dos seus membros participaram da guerra na Europa, destacando os alemães que tinham aviadores, peritos em artilharia e metralhadoras, mecânicos e operários qualificados.
Outro fator importante é ideológico, alguns eram simpatizantes da social democracia, do anarquismo e do comunismo. O comandante do Batalhão húngaro, Maximiliano Agid, fora capitão na Revolução Húngara de 1918, acusado por setores reacionários da colônia húngara de ser comunista, este fator foi fundamental para desencadear uma campanha antibolchevique por parte dos legalistas e das elites brasileiras e paulistas. Bernardes não poupou críticas e promessa de vingança aos “mercenários” e após 28 dias de intenso bombardeio sistemático à capital paulista, principalmente nos bairros operários, levando ao êxodo de 60% da população, os revolucionários foram obrigados a se retirar. Destaca-se que após a retirada, a repressão às colônias, aos que se renderam e ao proletariado foi intensa e houve um verdadeiro massacre dos amotinados, simpatizantes ou suspeitos.
A Coluna Paulista ruma para o Mato Grosso, mas é detida por imensas forças legais em Três Lagoa (MS), resolvem se reagrupar em Catanduvas (PR), perto do tríplice fronteira, e lá permanecem sem capacidade de mobilidade, cercadas pelas forças legalistas do General Cândido Rondon. (AQUINO, 1998).
A REVOLTA GAÚCHA e o NASCIMENTO DA COLUNA INVICTA
A coluna marcha
Na frente dos cavalos,
das cidades, dos sertões
Na frente das ondas,
do fogo, das promessas.”
MURILO MENDES
O cerco dos revolucionários paulistas no meio das florestas paranaenses gerava indignação de toda a oposição e, principalmente, no tenentismo. Várias conspirações e tentativas de revoltas aconteceram no ano de 1924, mas será com a soma dos Maragatos do caudilho Assis Brasil e dos tenentes do Rio Grande do Sul que surge a Coluna Gaúcha, em 29 de outubro de 1924. Seguindo o roteiro de todo levante tenentista, a organização falha e no fim só quatro quarteis de Santo Ângelo e São Borja se insurgem. Após alguns dias de combate, as forças legalistas conseguem desbaratar a revolução, que só conseguiu sobreviver na região de São Luís Gonzaga, graças à ausência de ferrovia nas proximidades e à liderança de Luiz Carlos Prestes. Somou-se aos insurgentes alguns tenentes importantes, que estavam exilados no Uruguai e Argentina, entre os quais destacam-se: João Alberto, Cordeiro de Faria e o herói dos Dezoito do Forte, Siqueira Campos.
Neste instante, cercado pelas tropas legalistas, começou a se formar a “Coluna Invicta”. Prestes contava com cerca de 1500 combatentes entre civis e militares e precisou transformar este agrupamento revoltoso num movimento político militar revolucionário, foi necessário o convencimento político de que cada combatente – civil ou militar – estavam lutando contra a tirania de Arthur Bernardes, por melhorias de vida e por um Brasil melhor. Destaca-se que os combatentes não tinham soldo, não tinham qualquer benefício e eram punidos por qualquer saque, pilhagem ou destrato às populações. Os combatentes lutavam por um ideal político, essas ideias começaram a ser divulgadas através do Jornal Libertador, por onde a Coluna veiculava seus manifestos e programa político, foram feitos ao longo da marcha 10 números que eram distribuídos na sociedade. Destaca-se que o Jornal Libertador era dirigido pelo maranhense José Maria dos Reis Perdigão, que em 1930 foi governador (interventor) indicado pela Revolução de 1930.
Durante o mês de dezembro o governo destinou mais de 14 mil soldados para enfrentar os revoltosos, cercando-os em São Luís Gonzaga, a situação era vista como de derrota certa, a tática do exército brasileiro era de guerra de posição, ou seja, uma formação parada enfrentando outra formação. Prestes, ciente de que não tinha como enfrentar um inimigo tão superior em armas e soldados, colocou a tropa em movimento e passam ao largo das colunas do exército sem serem percebido, e ainda venceu em combate às tropas da reserva, onde morreu o comandante geral desta guarnição (PRESTES, 1995).
Ao entrar em Santa Catarina, metade dos combatentes resolvem permanecer no seu Rio Grande enquanto os demais seguiram para se juntar às tropas paulistas de Miguel Couto e de Isidoro Dias. Foram mais 40 dias de marchas forçadas, fazendo picadas em matas fechadas e com frequentes combates às forças legalistas. E num desses combates, na região de Maria Preta, em SC, que a Coluna ganhou destaque nacional, duas tropas legalistas objetivaram cercar a Coluna pelos francos, só que ela se retirou e as tropas legalistas ficaram combatendo entre si durante toda a noite, com um saldo de mais de 200 soldados legalistas mortos. (PRESTES 1995, SODRÉ 1978).
Somente em abril de 1925, os revolucionários gaúchos e paulistas se encontraram. Em 12 de abril foi feita a reunião entre os dois comandos, o clima era de derrota entre os paulistas e de ânimo vitorioso entre os gaúchos. Prestes fez um discurso enérgico, conclamando a continuidade da luta, boa parte do comando paulista não concordou e se exilou na Argentina. Houve uma reorganização geral, o Marechal Isidoro Dias e outros oficiais idosos e os enfermos foram dispensados da nova marcha e se exilaram na Argentina. A Coluna foi dividida em dois comandos: a Paulista, com sub comando de Juarez Távora e a Gaúcha, com Prestes. O comando geral coube a Miguel Costa.
Entretanto, a situação era dramática, os revolucionários tinham diante de si as tropas legalistas do General Rondon, que se aproximavam para derrotá-los, e noutro franco três rios caudalosos e profundos: Paraná, Iguaçu e o Piquiri. O plano de Prestes consistia em entrar em território paraguaio, marchar 125 km e sair no Mato Grosso. E dessa forma foi feito.
Quando soube da retirada para o Paraguai, o presidente Bernardes declarou em todos os meios de comunicação a derrota da Coluna, e três dias depois teve que se retratar, ela havia reaparecido no Mato Grosso e atacado as tropas do Major Bertoldo Klinger, daí seguiu realizando ataques e retiradas, até que em 11 de novembro a Coluna Atravessa o rio Tocantins e entra no Maranhão.
COLUNA PRESTES NO MARANHÃO
O sonho de um Brasil melhor
Mais belo, mais justo, mais humano
Do jeito que Deus criou
E, por isso a Coluna por lá passou
(Sálvio Dino)
Na cidade de Carolina, Lourenço Moreira Lima ouviu de velho vaqueiro a seguinte frase — no momento em que o fogo devorava os livros de impostos — a respeito de processos injustos: — “Seu capitão, eu já tenho setenta e oito anos e inté hoje foi a coisa mió que vi fazê na Carolina, porquê os dêrêitos são um despotismo.”
O Maranhão, na década de 1920, refletia com suas particularidades a consolidação das políticas do Pacto do Governadores e também igualmente sua crise. A economia do estado era baseada no extrativismo de madeira e babaçu, predominava a agricultura familiar camponesa, o estado tinha recebido grandes contingentes de migrantes fugidos das secas que afetavam sobretudo Ceará e Piauí e a capital tinha uma expressiva colônia sírio-libanesa, que se destacava no comércio.
Durante o período da Grande Guerra (1914-19), as oligarquias dominantes conheceram significativo crescimento na exportação de algodão com aumento de 305% e o babaçu entrou na pauta de exportação, isso gerou uma expansão nas exportações de 43.6% nas receitas. (REIS 2013).
Por sua vez, São Luís beneficiou-se parcialmente do processo de urbanização e modernização, surgiram novos bairros, a eletricidade, calçamento, bondes, automóveis. Pouco depois do fim da guerra a economia volta a encolher e apresentar sinais de estagnação, isso afetou principalmente a capital, que conhecia o fim de sua prosperidade com o declínio da indústria têxtil, marcando o início de um período de declínio e de luta entre as oligarquias. (TRIBUZI, 2011).
As lutas políticas no Maranhão nesse período eram frequentemente descritas como lutas de famílias, anteriores à formação de uma oligarquia política coesa e duradoura, que só se consolidaria plenamente em décadas posteriores. A população em geral tinha pouca participação efetiva no processo político, que era dominado por acordos entre as elites.
A conjuntura política maranhense na década de 1920 foi marcada pela consolidação do sistema oligárquico da Primeira República e também pela sua crise, caracterizado pelo domínio de elites agrárias locais, o “coronelismo” e a “política dos governadores”. Esse cenário de controle familiar e exclusão política da maioria da população refletia a realidade nacional, mas com nuances locais. Em linhas gerais, a luta se dava entre o grupo oligárquico liderado por Urbano Santos e sua dissidência liderada por Herculano Parga, enquanto Santos representava os interesses rurais, os parguistas representavam a ascensão dos setores ligados aos profissionais liberais, a burguesia comercial e industrial, pequenos burgueses e o nascente sindicalismo urbano, principalmente de São Luís (REIS 2013 ; ALMEIDA 2010).
A consolidação dessa luta se dá pela formação do Partido Republicano Maranhense (PRM) que se vincula à Reação Republicana. Despontando neste cenário as lideranças opositoras de Tarquínio Lopes Filho, médico que se notabiliza como liderança política ludovicense, do desembargador de Codó, Dioclides Guedalha Mourão e da liderança camponesa de Manoel Bernardino, o “Lenin da Matta”. Os três formaram frentes distintas do parguismo: O desembargador de Codó, Dioclides Guedalha Mourão, através de pressões e movimentações jurídicas frente às ações dos grupos dominantes. Tarquinio Filho teve atuação destacada como médico, jornalista e deputado em São Luís e chegou a liderar com outros deputados oposicionistas um golpe de estado contra o governador empossado, Raul Machado, em abril de 1922. A tomada do Palácio dos Leões durou apenas 24 horas, já que a possibilidade real de uma intervenção federal forçou o movimento insurgente a um recuo, mas foi uma demonstração de força e prestígio da oposição, pois boa parte da população apoiou a breve junta governativa (SALGADO FILHO 2014). E, por fim, Manoel Bernardino, com atuação destacada junto aos movimentos campesinos da época (ALMEIDA 2010).
O principal aglutinador dessa ação foi a imprensa. O jornal Folha do Povo, dirigido por Tarquínio Lopes Filho, cumpria o papel de divulgar as ideias dos republicanos e igualmente suas críticas locais e nacionais, promovendo um debate animado, que seguiu por toda a década de 1920.
No campo tem-se a figura de Manoel Bernardino, que foi uma legítima liderança camponesa, que se notabilizou entre os seus por suas ideias socialistas- espiritas e por organizar uma Liga de Autodefesa, capaz de fazer frente ao poder de grandes fazendeiros, da polícia local e do coletor de impostos. Em todos os embates que se envolveu, Bernardino saiu-se vitorioso, o que lhe valeu o apelido jocoso dado por seus inimigos: “Lenin de Matta”. No centro das querelas estava a questão da terra e o movimento de resistência à espoliação, realizada pelo latifúndio.
A conjuntura local colocava na Coluna a esperança de estabelecer-se no Maranhão, uma verdadeira cabeça de ponte para o embate nacional. A estratégia de luta da Coluna era fomentar rebeliões contra a tirania de Arthur Bernardes e buscar adesões à marcha. No Maranhão tinha-se a expectativa de conseguir a adesão de boa parte das elites políticas dominantes ao movimento opositor, esse sentimento era forte pois era recente a tomada do Palácio Governamental pela oposição ligada à Reação Republicana. E foi com esse intuito que o Paulo Krieger foi enviado na frente, para fazer contato em São Luís com as lideranças locais. Por infelicidade, ele acabou sendo reconhecido e preso em Grajau, o que fez com que João Alberto adiantasse sua entrada para libertá-lo.
Em seguida, a coluna seguiu desde Goiás até Carolina, foi acompanhada pelos indígenas Xerentes, que o recepcionaram na fronteira e expuseram suas críticas e desavenças com o General Rondon (DINO, p.31; LIMA p 219).
No Maranhão, a Coluna recebeu adesão de 250 homens, em sua maioria ligados ao líder camponês Manoel Bernardino, “o Lenin da Matta” e de Euclides Neiva. Ambas as lideranças e seus soldados tomaram parte na libertação de Paulo Krieger em Grajaú e seguiram com a Coluna. No Piauí, Euclides Neiva foi ferido e por ali ficou, Manoel Bernardino seguiu até o Ceará, onde retornou à sua terra com seu irmão e mais 12 homens, os demais seguiram com a Coluna até a Bolívia (LIMA 1979, LANDUCCI 1952).
Manoel Bernardino – Lenin da Matta
Lenin da Mata dizia com firmeza e com vigor:
“A terra é de quem trabalha,
Não do latifundiário doutor!”
Sua voz era um trovão
No meio da plantação
Levantou a bandeira vermelha
Contra a opressão. ¨
(literatura de cordel, anônimo)
Manoel Bernardino foi com certeza o principal líder de massas dos trabalhadores camponeses e dos despossuídos do Maranhão, nas três primeiras décadas do século XX. Sua história é a mesma de diversos outros retirantes da seca cearense, que se transferiram para o Maranhão, em 1900, fixando-se um pouco mais adiante, na região de Codó, no vilarejo denominado, hoje, Dom Pedro. Homem de ampla iniciativa e de personalidade marcante, misturando em suas visões de socialismo a bíblia, espiritismo, vegetarianismo e leitura de Liev Tolstói. A sua lenda começa em 1913, com o enfrentamento de um latifundiário que tinha por prática o estupro de moças na região de Mirador, formando ali a Liga da Defesa composta por 100 homens armados, responsáveis por evitar furtos, estupros e mediar conflitos agrários.
Além de agricultor, Bernardino foi também construtor de estradas na região, professor primário, espírita kardecista e foi também uma pessoa letrada numa região e época em que predominava o analfabetismo. Também era um pensador e se ligou aos grupos políticos que questionavam a oligarquia Urbano Santos no Maranhão e o predomínio do Pacto dos Governadores e da sua política do Café com Leite no Brasil.
Em 1921, em meio à crise oligárquica pela qual passam o Brasil e o Maranhão, Bernardino, aliado da oligarquia dissidente do Partido Republicano Maranhense (PRM), denuncia que, no município de Codó, as eleições seriam viciadas, e propõe enfrentar a fraude.
Esse gesto acaba trazendo para si e para os seus o rancor vigoroso das oligarquias locais e de seu chefe, o presidente do Estado (e candidato eleito pela segunda vez a vice-presidente da República), Urbano Santos, o qual mobilizou cerca de 600 homens armados que são enviados à Região da Matta para deter Manoel Bernardino e a Liga da Defesa. (ALMEIDA, 2010 p 41). O fato importante é que Bernardino não estava lá, e, como consequência, houve prisão e tortura de cerca de 100 pessoas e fuzilamento de 4 pessoas para saber seu paradeiro. A repercussão foi nacional e a imagem de Santos saiu emasculada com os jornais opositores ligados à Reação Republicana repercutindo o fato no Maranhão e no Brasil. (ALMEIDA, 2010). Manoel Bernardino presta depoimento à polícia onde expõe suas convicções sociais e políticas, conforme segue:
“Comunico-te que estou pregando a doutrina amada – o socialismo. Como julgamos coisa inadiável, fui pregá-la no Codó, para evitar fuxicos (…) queria falar ali, no socialismo, do mesmo modo porque falava na Matta e, se nisto houvesse crime, seria intimado e citaria os livros, onde bebia a doutrina (…) Se isso faço é porque todos os dias chegam aos meus ouvidos que grupos de precisados pretendem atacar e eu congrego todos para debaixo de uma só bandeira com o fim (e não tinham o fim, pensa o declarante) não só de evitar tantos sangues e execuções bárbaras, como porque não devemos perder ocasião de impormos um governo do povo pelo povo (ALMEIDA, 2010, p. 86).
Após esse fato, promove um levante na região da Matta e passa a ser chamado pela imprensa de “Lenin Maranhense, Lenin da Matta”.
Neste contexto, adere à Coluna Prestes em 1925 (destacamento João Alberto) com cerca de 200 homens. Neste período, passou um ano entre os rebeldes até ser expulso ou dar baixa desta por divergências políticas. Segundo Anita Prestes (1997, p. 231), Bernardino optava por uma guerra de posição, tendo como centro desse desenvolvimento o Maranhão através da luta pela reforma agrária, e a Coluna buscava a guerra de movimento. Após esse episódio, Bernardino volta a Mirador, se converte ao vegetarianismo, abandona qualquer pregação política, chegando mesmo a vestir-se de anjo, mendigando pelas ruas, indo à casa das pessoas, que julgava ter ofendido, para pedir perdão. Após esse momento de penitência, dedica-se a seu roçado e vive assim até 1942, quando vem a falecer. (ALMEIDA, 2010 FERREIRA, 2018).
CONCLUSÃO
A passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão teve impacto positivo nos ânimos políticos da época, isso é mostrado na memória que nos é trazida em diversos artigos, cordéis, livros e teses. Sua motivação política continuou sendo um ativo mobilizador, que esteve fortemente presente na Revolução de 1930 e nas mudanças constitucionais que se fizeram no estado, no surgimento de novos protagonistas na cena econômica, social, política e cultural maranhense como as ideias de nacionalismo, desenvolvimento industrial, distribuição de renda e melhorias na educação e saúde. A chegada das ideias do modernismo junto a intelectualidade e a boemia, a entrada em cena do movimento operário e sindical, na organização de novos partidos com ideias regionais e nacionais como o PSB e PCB. No protagonismo de personagens como Tarquinio Lopes Filho e de Reis Perdigão. Tudo isso dá atualidade ao tema, tanto como um espaço importante na sociologia e história, mas sobretudo, pelo aprendizado, especialmente quando vemos importantes debates de nossos dias entre opções autoritárias e democratas, soberania, independência e associação subalterna. Estes temas de hoje, como ontem, são as pautas que mobilizaram a sociedade e suas transformações.
BIBLIOGRAFIA
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