Por PRC—

Acontece, mundialmente, uma alteração significativa na geopolítica imperialista. As mudanças são internas ao capitalismo e transcendem os “desvios” conjunturais de governos. Seu pano de fundo é o estágio superior das próprias formações econômico-sociais burguesas, marcadas pela concentração monopolista de capitais, pela centralidade das finanças na circulação que movimenta os valores econômicos e pela disputa renhida em prol dos “espaços vitais”, expressas na busca agressiva por matérias-primas, mercados cativos, fontes energéticas e zonas de influência.

Tais processos – conforme o padrão formulado por Kondratieff – desenvolvem-se na fase estagnante do ciclo longo inaugurada logo após a Segunda Guerra Mundial, que persiste e se revela como a mais longa da história. O fim da “Época de Ouro”, instalado na primeira metade dos anos 1970, e a falência do “Consenso de Washington”, que agora se manifesta na ruína da unipolaridade, escancararam os limites antepostos à sociabilidade burguesa. Ficou público e patente que a chamada “globalização” entrou em crise e chegou ao seu esgotamento.

Tais fenômenos configuram, pois, longe de uma simples oscilação passageira, sérias deficiências histórico-sociais, sugerindo a necessidade política de serem superadas sob o ângulo dos interesses proletários e populares. As tentativas utópicas do capital a partir dos 1980 foram incapazes de reverter a paralisia econômica nos centros imperialistas. Concomitantemente, as promessas burguesas de abundância fracassaram. Hoje, os dilemas do capital se manifestam na saturação tecnológica, no declínio da produtividade industrial e na pressão baixista sobre as taxas de lucro.

A resposta conservadora à crise planetária é a disseminação da barbárie. O capital promove a circulação massiva de recursos na especulação financeira, gerando mais misérias. O declínio da hegemonia estadunidense provoca o risco de novo conflito mundial, enquanto, em contrapartida, empurra mais governos rumo ao BRICS e gera condições para novas alianças comerciais ou militares. Ademais, as políticas social-liberais perderam o potencial de melhorar a vida das maiorias, enquanto a indústria bélica cresce e se converte no elemento central para as tentativas atuais de salvar o capitalismo do fosso cavado por si próprio.

A Casa Branca é a ponta de lança do grande capital monopolista-financeiro, articulando mecanismos de poder militar, bolsas, bancos, alianças, sanções e coerções, planetariamente. Durante largo período, sua dominação deu certa importância ao consenso e à diplomacia, mas agora os colocou em lugar subalterno em face de sanções, bloqueios, chantagens e intervenções, assim como de operações, encobertas ou não, e guerras, diretas ou por procuração. As negociações, os acordos e as disputas políticas são mantidos, mas para anuências, ilusões e, sobretudo, medos, como sempre buscando apresentar suas regras como legítimas e inevitáveis.

O acúmulo dessas práticas produz métodos intervencionistas escancarados e mais violentos. Essa flexão expressa o agravamento de contradições próprias do capitalismo, como: a superacumulação de capital, impulsionada pela concentração monopólico-financeira; a necessidade permanente de expropriação das riquezas na periferia, para assegurar a reprodução ampliada do capital nos centros dominantes; e a tentativa de deslocar, para o plano da circulação e do crédito, as contradições estruturais que o capital já não consegue resolver de maneira estável na esfera produtiva.

O imperialismo amplifica o uso da força bruta porque já não consegue manter sua dominação com as mesmas formas e grau de consenso outrora utilizados. Eis por que, nesse ambiente, surgem condições propícias a opções reacionárias. Quando se aprofundam a insegurança material, a instabilidade social e a sensação declinante, abre-se o espaço para que figuras como Donald Trump ganhem projeção e apoio social, apresentando-se como resposta autocrática ao mal-estar produzido pelo próprio capitalismo. Não sucede algo exterior ao “sistema”, mas uma de suas possibilidades regressivas em tempos da hegemonia em crise.

Tal escalada ocorre nas diferentes frentes da luta entre as classes ou suas frações e nos contenciosos políticos. O sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças especiais, em janeiro de 2026, seguido pela pretensão de controlar receitas e licenças vinculadas ao petróleo venezuelano, articulou a coerção militar prepotente com a apropriação da cadeia petrolífera no País vizinho. Em movimento semelhante, os impropérios e ameaças contra Cuba se intensificaram: o bloqueio energético agravou a falta de combustível, os apagões e os problemas sociais.

No Cone Sul-Americano, a fragmentação dos movimentos populares vem solapando as bases históricas do campo democrático e reconfigurando a correlação de forças. Os flancos institucionais-eleitorais são abertos, facilitando o papel de congressos com maioria conservadora e da extrema direita. O reacionarismo é ainda impulsionado pelo fraco desempenho de governos progressistas, além da falência que assola os partidos tradicionais à direita, bem como da rejeição popular aos limites e instituições das políticas social-liberais. Ademais, práticas particularistas de cunho identitário, ao nublarem os conflitos político-sociais de fundo, fragmentam os alicerces da esquerda.

O cenário de polarização impõe, para as forças populares, a necessidade premente e irrecorrível de reorganização política. A insatisfação com a bancarrota do projeto neoliberal e a exaustão em face do social-liberalismo – uma das expressões hodiernas da social-democracia – tornam urgentes as iniciativas de recomposição avançada por meio de frentes amplas e coalizões heterogêneas, únicas formas suficientemente alargadas e capazes de colocar no segundo plano – sem eliminá-las, obviamente – as divergências programáticas, sejam estratégicas, sejam imediatas, visando a construir a unidade na tática e canalizar o descontentamento social.

Contudo, a realidade regional evidencia, com raras e honrosas exceções, uma dificuldade crônica – das forças democráticas, progressistas e patrióticas, inclusive por parte dos partidos mais fortes e experientes – em constituir e manter a unidade interna em torno de uma plataforma de cunho anti-imperialista e adequada para o enfrentamento exitoso à extrema-direita. A dinâmica política sul-americana oscila e se condensa, portanto, entre a pulverização interna, um caminho certo para derrotas, e a exigência de unificação, uma condição nuclear da sobrevivência política com influência nas grandes massas e da passagem futura à ofensiva estratégica.

A hegemonia norte-americana, consolidada em forma de unipolaridade por meio da superioridade econômica e militar, bem como de consensos liberais, é inepta para reproduzir-se, devido às contradições do próprio modo de produção capitalista em sua etapa imperialista, que impele a dominação à contínua expropriação nos países dependentes ou “periféricos”. Eis por que as formas abertas de coerção passam a predominar sobre os antigos mecanismos de pactuação internacional, gerando instabilidade interna e abrindo frestas para múltiplas alternativas autocráticas.

No caso iraniano, a agressão combinou assassinatos de altos dirigentes do País, inclusive do aiatolá Ali Khamenei, com ataques à infraestrutura energética, especialmente ao campo de South Pars e ao polo petroquímico de Asaluyeh. Foram escolhas que demonstraram ser o alvo não apenas um governo, mas o regime político, o núcleo dirigente do Estado e um dos eixos centrais da economia. Os desdobramentos da guerra podem redesenhar a correlação de forças no oeste-asiático, com impactos sobre os corredores comerciais, rotas energéticas e alianças militares, alterando as relações multilaterais entre as potências regionais e globais.

A centralidade da guerra ao Irã decorre, também, da relevância geopolítica do agredido. Sua posição geográfica é fulcral nas conexões eurasiáticas, inclusive a Nova Rota da Seda e a segurança energética de Pequim. O controle da energia e sua comercialização em dólar, para Washington, é pilar de sua hegemonia. Quem controla as principais rotas desse ativo, assim como fluxos financeiros e de pagamento, possui uma alavanca decisiva sobre a ordem mundial. Logo, a guerra ao povo e à nação persa procura manter a primazia da moeda chave para as potências ocidentais, conter os seus adversários e bloquear os rearranjos que as enfraqueçam.

A guerra da OTAN contra a Rússia funciona como mais uma peça da mesma realidade. Os combates e manobras no terreno ucraniano condensam disputas por recursos, vias de escoamento e zonas de influência, ao mesmo tempo em que revelam a tentativa dos EUA e dos imperialismos europeus de ampliar o cerco sobre a vasta nação euroasiática, que lhe desperta um temor histórico, e de preservar suas hegemonias norte-atlânticas. Trata-se de uma vertente central na reorganização violenta e unilateral da ordem internacional, em um contexto de crise aguda.

Eis por que os atos e justificativas do imperialismo se tornaram mais brutais, sem mediações. Multiplica-se a celebração do colonialismo, apresentando a história dos impérios como legado civilizacional e associando seus declínios aos levantes nacional-libertadores ou às revoluções socialistas. Naturaliza-se o jugo sobre outras nações e a contenção de processos emancipatórios. Atingido pelo acirramento internacional e às vésperas de eleições gerais, o Brasil está no centro das disputas. Cresce a pressão sobre o País, na medida em que o horizonte político aponta para maior soberania, fortalecimento dos BRICS e ampliação dos vínculos com a China.

A conjuntura anuncia, portanto, um período de choques simultâneos, em que as provocações, os conflitos subterrâneos e os confrontos são concretos. A beligerância exprime o hiato na transição a uma ordem geopolítica multilateral, ainda inconclusa, transformando acordos de cessar-fogo em pausas fugazes para recomposição e rearmamento. Assim, as disputas pelo controle de rotas comerciais, de infraestruturas energéticas e de recursos estratégicos acabam transformando antigas fricções – diplomáticas ou territoriais – em embates abertos.

Nesse contexto, a defesa da paz significa não a neutralidade diante da opressão, nem aceitação passiva da ordem existente, mas uma tarefa política ativa, vinculada à defesa da humanidade – com destaque aos trabalhadores e aos “de baixo” –, à soberania dos países, à autodeterminação nacional e ao enfrentamento às estruturas que produzem guerras, bloqueios, sanções ou intervenções. Uma paz verdadeira exige o respeito ao direito internacional, a solução negociada dos conflitos, o fim das políticas de coerção econômico-militar e relações baseadas na cooperação entre os povos, jamais na subordinação aos interesses das grandes potências.

A guerra contra o Irã, a pressão sobre a Venezuela, o bloqueio a Cuba, o projeto de cerco à Rússia e a disputa em torno de países como o Brasil, são manifestações de uma totalidade histórica. Se a crise do capitalismo em seu estágio imperialista, a erosão relativa da hegemonia estadunidense e a emergência de um mundo multilateral empurram as forças dominantes para formas cada vez mais abertas de coerção, a tarefa política decorrente é a defesa da paz, o fim imediato de todos os conflitos intervencionistas, a soberania dos povos e a autodeterminação nacional por todo o Planeta.

Brasil, 19 a 21 de junho de 2026,

Comitê Central do PRC – Partido da Refundação Comunista

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