Por Sérgio Campos —

 

Francisco segura ao colo um grande escaravelho sagrado. Ambos têm os olhos cobertos — como todos agora. A visão tornou-se ferida; o mundo, um clarão insuportável. Já não se vê Deus em parte alguma, apenas o reflexo gasto das intenções humanas, esfareladas entre a fé e a ferrugem.

O santo, exilado em seu próprio século, curado de sua fé esquizoide, é hoje um sobrevivente entre os destroços do sagrado. O escaravelho — reluzente, opaco, quase metálico — ergue-se como novo ídolo: um oráculo maquínico que arrasta consigo a poeira do futuro. Sobe com ela até o alto dos céus e, em seguida, a perde — como um Sísifo desastrado, condenado à repetição sem transcendência.

Em torno deles, o cão mastiga a lâmpada acesa — e do vidro triturado nasce o escuro. Assim, o mundo se refaz pela negação: já não há revelação, apenas resíduos de sentido. O desencanto tornou-se substância, as dissidências, respiração, e o cansaço, a nova forma de fé.

O homem e o inseto se equilibram num mesmo gesto — o gesto final de uma piedade convertida em ruína, de uma esperança endurecida em ferro. O que resta é apenas o rumor de um tempo em que a luz ainda sabia ser milagre.

por conta da insônia…


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