Vencido mais um mês da crise multilateral que assola o País – ciclo econômico estagnado na concavidade, inflação em alta com a correspondente carestia, juros estratosféricos, desemprego paralisado em alto patamar, bate-cabeças entre as instituições que materializam o regime democrático e uma nova tentativa de autogolpe –, eis que se completa o cenário para o confronto eleitoral de outubro. Exceto certas postulações insignificantes à Presidência – que traduzem nanoprojetos carreiristas ou seitas especializadas em testemunhar convicções –, os principais campos mostram suas caras e composições.

A coreografia lembra uma elipse, com dois centros. A candidatura das milícias protofascistas sincroniza um duplo discurso, tentando compatibilizar o seu autocrático antistablishment – essencialmente reacionário e pró-imperialista –, com a flexão eleitoreira, calcada em conceitos liberais como “Estado Democrático de Direito” e “Democracia”. Fala em “sair das quatro linhas”; porém, joga no seu interior enquanto há uma precisão de fazê-lo e a esperança de virar o placar. Dirige-se à falange fanatizada, mas quer os votos conservadores do centro influenciado pelo “anticomunismo” e hostil ao capitalismo estatal.

Polarizando a oposição democrática e progressista, o nome de Lula reúne um espectro que vai de marxistas, passando pela socialdemocracia tradicional ou atualizada como social-liberalismo, até correntes burguesas preocupadas com as liberdades, a questão nacional, o desenvolvimento econômico, a problemática social e mesmo a própria sobrevivência. Já somam sete partidos e mais alguns setores de outros, inclusive as principais agremiações legais à esquerda. Tangida pela reprodução da vida e a luta real de classes, traduzidas em contenda eleitoral, tais atores políticos vão tecendo a frente ampla.

Os coadjuvantes amargam uma situação difícil. A esquerda na seara do capital, evocando a via nacional-desenvolvimentista, carece de um lastro social capaz de lhe abrir caminho em um quadro historicamente restrito, herança da monopolização e de uma classe dominante basicamente associada, que abandonou qualquer laivo de capitalismo autônomo para valer, além de sofrer o constrangimento imposto pelos termos do embate. Por seu turno, a “terceira via” – sem referência eleitoral com densidade suficiente – move-se aos trancos e barrancos, condenando-se a ciscar nas margens do processo em curso.

A tendência, reiterada por todas e cada uma das pesquisas, é a decisão entre Bolsonaro e Lula. Considerando-se que, no eventual returno, a maioria dos favoráveis ao nome do PDT sufragaria o candidato à esquerda, é vital que ao menos alguns segmentos à direita, hoje dedicados à opção terceirista, optem ao fim e ao cabo por salvar o regime democrático e barrar o retrocesso. Para tanto, é preciso que os revolucionários e aliados mantenham o rumo, evitem a dispersão e tratem habilmente os demais oposicionistas, entendendo que os seus eleitores integram os conflitos e podem ser indispensáveis à vitória.

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