Por Maria Luiza Franco Busse—
Terminou a Geopolítica em chuteiras e entrou em campo a Geopolítica da governança compartilhada. Na cartografia do ocidente, Espanha venceu a Argentina por 1 X 0 na final da 23 ª Copa do Mundo disputada no estádio de Nova Iorque New Jersey, nos Estados Unidos. Por 39 dias, de 11 de junho a 19 deste mês de julho, times de 48 países se enfrentam no jogo do perde-ganha. Enquanto isso na China, em quatro dias do mesmo período, 29 países do Sul Global marcaram mais um tento com a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial.
Na cidade de Xangai, líderes e representantes se concentraram na Conferência Mundial de Inteligência Artificial 2026, realizada de 17 a 20 de julho, e firmaram acordo para desenvolver tecnologias inclusivas de IA a partir de modelos de código aberto e de baixo custo voltados para a industrialização, por meio de troca de conhecimento, pesquisa, formação e capacitação de pessoal, apostando no placar do ganha-ganha que impulsiona o crescimento interno das nações e permite reduzir a desigualdade entre os cooperados visando o bem comum.
No discurso de abertura do anfitrião do evento, presidente Xi Jinping, nada de novo e sempre cada vez mais atual.Com palavras e metáforas diferenciadas, a fala de Xi foi ressonância de sentido e significado do que disse o Primeiro-Ministro Zhou Enlai, da República Popular da China, na Conferência Afro-Asiática de 1955, realizada em Bandung, na Indonésia, que lançou as bases da formação de países Não-Alinhados a qualquer bloco e voltados para suas lutas de independência, soberania e desenvolvimento.
De 1955 a 2016, a distância de 71 anos aproximou os tempos de Xi e Zhou. Em Bandung, a China de Mao e Zhou afirmou o princípio da cooperação econômica e cultural entre os povos, manifesto nos dizeres do então Primeiro Ministro:
(…) “para nos ajudar a modificar nossa fisionomia atrasada pelo saque e pela opressão prolongada do colonialismo. A cooperação entre os países afro-asiáticos deve basear-se na igualdade e em benefício mútuo sem nenhuma condição de privilégio adicional. Os intercâmbios comerciais e a cooperação econômica entre nós devem ter como meta promover o desenvolvimento econômico independente de cada um de nossos países sem que nenhum se converta em simples produtor de matérias primas ou num simples mercado de produtos de consumo. Os intercâmbios culturais devem respeitar o desenvolvimento de nossas culturas nacionais sem menosprezar as vantagens e pontos fortes de cada um de nossos países para que possamos conhecer-nos e nos assimilarmos mutuamente”.
(…) “Estamos firmemente convencidos de que com o desenvolvimento industrial de nossos países afro-asiáticos e com o aumento da qualidade de vida de nossos povos, e com a eliminação dos obstáculos estrangeiros artificialmente infiltrados nas relações comerciais internacionais, aumentarão gradualmente os intercâmbios comerciais e a cooperação econômica entre os diversos países afro-asiáticos e serão cada vez mais frequentes os intercâmbios culturais”.
(…) “Conforme os princípios de respeito mútuo à soberania e integridade territorial, de não-agressão mútua, não-intervenção nos assuntos internos do outro, igualdade e benefício mútuo, os países com diferentes sistemas sociais podem coexistir pacificamente. Partindo do compromisso de cumprir estes princípios, não há motivo para não poder resolver as disputas internacionais mediante diálogo”.
(…) “Ninguém poderá continuar subjugando-nos se estamos determinados a alcançar e salvaguardar a independência nacional; ninguém poderá separar-nos se estamos decididos a cooperar amistosamente.”.
Dos 29 países que conformaram a Conferencia de Bandung, sete se mantiveram na Conferência Mundial de Inteligência Artificial iniciada em 2018. Além da China, permaneceram Camboja, Etiópia, Indonésia, Laos, Myanmar e Paquistão, e a eles se somaram África do Sul, Argélia, Belarus, Brasil, Camarões, Cazaquistão, Congo, Cuba, Lesoto, Malásia, Moçambique, Nicarágua, Omã, Quênia, Quirguistão, Rússia, Senegal, Sérvia, Tajiquistão, Uzbequistão, Venezuela e Zâmbia.
Ficaram pelo caminho da rota Bandung-Xangai, Afeganistão, Arábia Saudita, Ceilão (atual Sri Lanka), Costa do Ouro (atual Gana), Egito, os então Estados do Vietnã, Filipinas, Iêmen, Índia, Irã, Iraque, Japão, Jordânia, Líbano, Libéria, Líbia, Nepal, a então República Democrática do Vietnã, Síria, Sudão. Tailândia e Turquia.
De volta aos gramados do futebol. Irã e Egito participaram e se enfrentam no mundial, mas deixaram a Copa por razões alheias à própria vontade. Irã foi eliminado ainda na primeira fase e Egito nas oitavas de final. Irã saiu invicto e Egito não partiu sem antes deixar cravado o lindo gol de cavadinha de Salah, capitão da equipe. De feio, a gatunagem de juiz que anulou gols e desconsiderou pênalti válido, com VAR e tudo. Mas Irã e Egito caíram de pé. Na despedida, o técnico do Egito, Hossam Hassam, foi para a galera com a bandeira da Palestina e gravou a fala para ser lembrada hoje e sempre:
“Gostaria de agradecer ao povo irmão palestino pelo apoio e incentivo à seleção egípcia. Dedico esta vitória e nossa classificação a eles. Apesar do sofrimento do povo palestino, testemunhamos a alegria deles por nossa causa. Rogamos a Deus que lhes conceda a vitória e tenha misericórdia de seus mártires. Pedimos a Deus que nos abençoe com esta vitória para que possamos trazer alegria a eles, assim como alegria a todo o povo árabe.”
Por sua vez, os jogadores do Irã foram embora deixando no vestiário uma carta sobre o que entendiam como jogar o jogo
“Nós viemos do Irã. Viemos de uma terra que há milhares de anos coloca a honra acima da vitória. Para nós, o futebol não é apenas uma competição por resultados. É um teste de caráter. Talvez seja possível conquistar pontos de muitas maneiras, mas o respeito não. Talvez uma equipe possa avançar de fase, mas somente por meio da justiça e da honra alguém pode permanecer de cabeça erguida diante da história. O fair play não é apenas uma linha nas regras do futebol; é a alma do jogo. Obrigada, Seattle, pela hospitalidade. E obrigada a todos os iranianos que deram seus corações, suas vozes e todo o seu ser pelo Irã. Irã, sempre de cabeça erguida.”.
Quem sabe Irã e Egito se animam e voltam a fazer parte da seleção que segue no jogo da cooperação compartilhada nesta Bandung do século 21, e cuida dos “jardins das civilizações”, como disse Xi Jinping na Conferência sobre IA que acaba de dar o pontapé inicial para a consolidação do interesse comum por uma terra sem amos, internacionalista, entre países soberanos e solidários.
