Por John Kennedy Ferreira*—
“Aquilo que na Itália é o Sul, isto é, exatamente, no Brasil o Nordeste” — Otto Maria Carpeaux (1966)
Introdução
Este pequeno texto tem como objetivo propor uma reflexão sobre o cenário eleitoral e os 30 anos do neoliberalismo e sua racionalidade, implantados (e mantidos) no Maranhão desde os governos de Roseana Sarney (1995-2002).
De lá para cá, os dados sociais mostraram piora: acumularam-se riquezas, ampliou-se o êxodo estadual e, talvez o pior dano, consolidou-se a cooptação de boa parte dos movimentos sociais, partidos populares e ativistas pelo pensamento neoliberal.
As Eleições no Maranhão: 30 anos de Neoliberalismo
“Se quisermos que as coisas continuem como são, elas terão que mudar” — Conde de Lampedusa (In: O Leopardo)
O Maranhão se notabiliza ao longo do tempo pelo desenvolvimento de uma economia agroexportadora. Desde as origens da colônia, a formação estrutural do estado provincial (e de suas classes e elites dominantes) contentou-se com o papel passivo de “exportar madeira para comprar mesa”. Hoje, a mentalidade não mudou muito: exporta-se minério e compram-se celulares.
Esses marcos estruturais se agudizaram com a racionalidade neoliberal em 1995, nos governos de Roseana Sarney. Nessas gestões, foram privatizadas várias empresas públicas, com destaque para o Banco do Estado do Maranhão (BEM) e a companhia de energia, CEMAR. Igualmente, houve o enxugamento da máquina pública, com a demissão de milhares de servidores e a redução do tamanho do Estado e de sua capacidade de fomento na sociedade.
A promessa era de crescimento econômico com a superação do desemprego e da baixa renda. Isso seria feito por meio da abertura aos capitais estrangeiros, tendo como vantagem comparativa o desenvolvimento e a exportação da rica cultura maranhense. Dessa forma, o Maranhão se converteria em um “Tigre Asiático”.
Passados mais de 30 anos, o número de pessoas que vivem com até um salário-mínimo saltou de 41,1% (IBGE, 1991) para 60% (IBGE, 2025). E a própria “baianização” das festas tradicionais mostra que a pauta de exportação da cultura encontrou o seu nêmesis.
Os dados demonstram que a racionalidade neoliberal fragilizou a sociedade maranhense: 1.154.413 famílias (41,3% da população) precisam do Bolsa Família, com número semelhante no Auxílio Gás; 223 mil estudantes secundaristas recebem o auxílio Pé-de-Meia; mais de 190 mil pessoas (2,75% da população maranhense) recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Destaca-se que esses auxílios contam com a complementação de programas análogos do governo estadual (como o Maranhão Livre da Fome e o Bolsa Escola).
O número de pessoas que recebem auxílios governamentais é superior ao de pessoas formalmente ocupadas. No Maranhão, são 694.420 trabalhadores com carteira de trabalho assinada, sendo que quase a metade é constituída por servidores públicos (304 mil) — destes, cerca de 90 mil são efetivos (aproximadamente 27%). Destaca-se também que cerca de 60% da força de trabalho estadual está na informalidade. Soma-se a isso o fato de que a qualidade dos empregos no estado é baixa e de pouco valor agregado, pois não há indústrias de alta tecnologia e produtividade. Aqui praticamente não se realiza a mais-valia; exportam-se commodities e compram-se produtos industrializados derivados delas.
Por conta da necessidade de expandir a produção de commodities, o Maranhão lidera os conflitos por água e terra no Brasil. A disputa envolve a expansão do agronegócio por meio da grilagem, o que coloca em constante insegurança jurídica povos indígenas e comunidades quilombolas. Foram registrados 1.593 casos de conflito de terra em 2025. Essa situação foi facilitada pela Lei de Terras do governo Brandão (2023), que incentiva a apropriação de terras devolutas pelo latifúndio do agronegócio.
Durante esses mais de 30 anos de neoliberalismo no Maranhão (e no Brasil), o balanço é negativo, exceto para setores da burguesia comercial, frações intermediárias da pequena burguesia e funcionários do capital ligados ao mercado de commodities (minerais, gás, petróleo e agronegócio). Para a grande maioria da população, não houve melhorias reais nas condições de vida, e essa desigualdade é ainda mais acentuada entre indígenas, mulheres, jovens, negros e pardos.
A história do poder no Maranhão é marcada por severas disputas oligárquicas e coronelistas que remontam ao período anterior ao nascimento da República. Hoje não é diferente: a sucessão estadual traz as marcas de acordos, rupturas e traições. Os dinistas (seguidores do ex-governador e atual ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino) haviam feito um acordo com os orleanistas (seguidores do atual governador, Carlos Brandão) e outros aliados, incluindo o PT, para que a sucessão de 2026 apontasse o vice-governador Felipe Camarão (PT, mas historicamente dinista) como candidato. No meio do caminho, contudo, o governador Carlos Brandão (hoje no MDB), em acordo com partidos aliados e setores do PT, optou por endossar seu sobrinho, Orleans Brandão (MDB), Secretário Extraordinário de Assuntos Municipais e filho de Marcus Barbosa Brandão (presidente do MDB-MA e diretor da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão – Alema).
Orleans Brandão foi indicado em março para a disputa, enquanto Felipe Camarão (PT), indicado pela Direção Nacional do partido, aguarda o encontro estadual partidário para confirmar seu destino político.
O principal adversário do clã de Carlos Brandão é o seu primo e atual prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), que se notabiliza por uma gestão focada em obras e por um forte discurso técnico “antipolítica”, contando com uma aprovação expressiva de 94%.
Há ainda a possibilidade da candidatura de Roberto Rocha (Novo) — que poderá substituir Lahesio Bonfim (Novo), segundo colocado no pleito de 2022 —, representando a extrema-direita bolsonarista; de Enilton Rodrigues, na tentativa do PSOL de se enraizar na política majoritária estadual; e, por fim, da candidatura de Saulo Arcangeli, pelo PSTU.
Gestão Brandão
“No geral, o povo sente, mas não sabe dizer, enquanto o intelectual sabe, mas pouco se permite sentir.” — Trocate (2017)
O governador Carlos Brandão compôs o leque da Frente Ampla em apoio a Lula e foi eleito no primeiro turno de 2022 com 51,29% dos votos. Sua coligação envolveu 10 partidos: PODE, PSB, Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), Federação PSDB/Cidadania, MDB, Patriota e PP, tendo como vice Felipe Camarão (PT) e como liderança governista na Alema o deputado Neto Evangelista (União Brasil).
Gestão Social
O plano de gestão estadual se notabilizou pela criação de programas de transferência de renda compensatória e assistência social, como a expansão dos Restaurantes Populares (hoje com 200 unidades em funcionamento) e o programa Maranhão Livre da Fome, que complementa o Bolsa Família federal com parcelas de R$ 200 mensais para famílias vulneráveis cadastradas.
Na área da Saúde, destacam-se programas como Aqui a Fila Anda, Cuidar dos Olhos e melhorias no atendimento infantil. Essas ações, em parceria com o governo federal, viabilizaram a ampliação dos procedimentos cirúrgicos, alcançando mais de 1,2 milhão de atendimentos nesses três anos de gestão. Por outro lado, não faltam denúncias de parlamentares e da população sobre o abandono da saúde pública, com relatos de pacientes internados em cadeiras nas UPAs devido à falta de leitos nas unidades e nos hospitais. A demora no atendimento é agravada pela falta de medicamentos e de profissionais de saúde, somando-se a denúncias de desvio de verbas do setor em vários municípios, o que gerou investigações e prisões de envolvidos.
Na Educação, houve reformas de escolas, distribuição de tablets aos alunos por meio dos programas Tô Conectado e Educação de Verdade, ampliação de escolas de tempo integral e de escolas cívico-militares, além de parcerias para a internacionalização de estudantes da rede pública. Tudo isso acompanhado do anúncio de um aumento salarial de 10% para os profissionais da educação.
No entanto, a propagada “educação de qualidade” esbarra em gargalos estruturais: apenas 42% dos profissionais da educação no estado são efetivos (apesar de a Secretaria de Educação manter a maior porcentagem de servidores efetivos do Estado), lembrando que o último concurso público para a categoria foi realizado em 2016.
O Maranhão foi o primeiro estado a adotar o Novo Ensino Médio (NEM), ainda na gestão de Flávio Dino, sob a gestão do então secretário Felipe Camarão. O modelo pedagógico adotado na atual gestão é visto por críticos como uma adaptação da educação de viés ultra-neoliberal praticada em São Paulo e no Paraná. Essa associação se dá tanto pelo uso de equipamentos da empresa Multilaser (que tem como um de seus sócios o ex-secretário de Educação do Paraná e atual secretário da pasta em São Paulo, Renato Feder) quanto pela terceirização de conteúdos e do planejamento pedagógico para a associação Motriz (financiada pela Fundação Lemann). Críticos apontam que essa metodologia visa substituir o professor e seus saberes por tablets alimentados por ferramentas de Inteligência Artificial de big techs, reduzindo docentes e alunos a meros apêndices da máquina.
A prática de substituir ou terceirizar atividades de servidores efetivos por fundações privadas estende-se a quase toda a administração pública maranhense. Empresas privadas chegam a desenhar organogramas de secretarias, e cargos técnicos e de gestão passam a ser preenchidos por critérios políticos em detrimento da competência técnica. Convém recordar que, desde 2005, havia uma forte reivindicação de educadores no Brasil para a retirada de celulares das salas de aula — restrição finalmente obtida no estado por meio da Lei nº 15.100/2025. Logo em seguida, contudo, os celulares foram substituídos por tablets corporativos.
Em linhas gerais, argumenta-se que o uso massivo de IAs, tablets e Tecnologias de Gestão Educacional (TGE) em sala de aula inibe o aprendizado e atrofia o desenvolvimento cognitivo dos estudantes. Predomina a racionalidade educacional neoliberal pautada nos conceitos de “eficácia, eficiência e escolha”, visando formar jovens apenas “autônomos, solidários e competentes”. O desenvolvimento da gestão também promove precarização trabalhista por meio de contratos temporários, uso de bolsistas para substituir professores e contratação de militantes para áreas técnico-pedagógicas, cenário que levou a presidente do IEMA a ser convocada para prestar esclarecimentos na Alema.
Outro tema controverso é o avanço das escolas cívico-militares. O estado contava com 20 unidades em 2022, saltando para 81 em 2026. Nos municípios, o crescimento foi ainda mais expressivo, passando de 4 escolas em 2019 para 101 em 2026. Esse modelo transfere a gestão disciplinar das escolas para o Corpo de Bombeiros e para a Polícia Militar. Há casos em que a coordenação pedagógica é influenciada por grupos religiosos, e acumulam-se denúncias de cobrança indevida de taxas mensais, além de episódios de perseguição e discriminação racial, cultural, religiosa e de gênero.
A diversidade e a pluralidade da juventude acabam sufocadas por discursos autoritários impostos a alunos, pais e professores. Há relatos de perseguição a docentes, sem que existam indícios concretos de que o modelo cívico-militar apresente melhor desempenho de aprendizagem do que o modelo regular, funcionando, segundo críticos, como uma engrenagem de pensamento autoritário que nega os avanços da pedagogia e das ciências da educação.
A cultura popular maranhense é uma das mais ricas do Brasil, e a gestão Brandão propôs-se a focar na valorização do bumba meu boi, do tambor de crioula, do cacuriá e na promoção de megaeventos no São João do Maranhão.
A Secretaria de Estado da Cultura (Secma) investiu na criação de um Mapa Cultural descentralizado, promovendo atividades em várias regiões da Grande São Luís e beneficiando artistas locais com adiantamento de cachês e melhoria dos espaços culturais. Apesar disso, sobram críticas à “baianização” do Carnaval e do São João, devido à priorização de shows de grande porte com artistas de renome nacional em detrimento da cultura local. Há também registros de atrasos recorrentes no pagamento de cachês de grupos de bumba meu boi e de artistas locais, além de denúncias de aliciamento, corrupção e uso político da máquina cultural (que resultaram em prisões). Soma-se a isso a excessiva concentração de recursos na capital e a suposta ingerência de familiares do governador na pasta.
A segurança pública do Maranhão ficou nacionalmente estigmatizada pelas violentas rebeliões prisionais de 2013. Desde então, houve investimentos na capacitação dos policiais penais e no gerenciamento do sistema prisional. O efetivo da PM recebeu novos treinamentos, a frota foi modernizada com 800 novas viaturas e 250 prédios da segurança foram reformados.
O governo estadual ostenta dados de redução nos índices de feminicídios (17%), latrocínios (9%) e homicídios (6,5%), além da prisão de lideranças de facções criminosas. Por outro lado, repercutiram nas redes sociais denúncias de deputados mostrando que uma mesma viatura do Corpo de Bombeiros (prefixo ABTS 02) foi apresentada como nova entrega nas cidades de Colinas, São Mateus e Imperatriz, permanecendo, na realidade, baseada na Lagoa da Jansen, em São Luís. Além disso, a capital foi paralisada no final de outubro de 2025 devido a confrontos entre facções rivais — uma realidade que assombra rotineiramente diversos bairros de São Luís e do interior.
Somam-se ao quadro denúncias de abuso de autoridade e uso político-partidário do aparato policial contra opositores. Na própria Secretaria de Segurança Pública (SSP/MA), uma delegada denunciou ter sido assediada sexualmente pelo secretário durante uma reunião com outros homens. O secretário acabou exonerado (caso semelhante ao do diretor do Teatro Arthur de Azevedo, também afastado por assédio moral e sexual).
Gestão Econômica e de Planejamento
Carlos Brandão assumiu o governo definitivamente em abril de 2022 após a renúncia de Flávio Dino (que se descompatibilizou para concorrer ao Senado) e foi reeleito em primeiro turno. Sua gestão econômica caracteriza-se pela forte articulação com o governo federal para atração de investimentos viabilizados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Foram destinados R$ 94 bilhões para mais de 400 obras em 185 municípios maranhenses. Destacam-se as ações do programa Luz para Todos, que atendeu mais de 6 mil famílias, além de obras de drenagem, esgotamento sanitário e abastecimento de água. A modernização do transporte público de São Luís recebeu cerca de R$ 270 milhões para a construção de novos corredores de ônibus e terminais. Há também recursos assegurados para 56 novas Unidades Básicas de Saúde (UBS), projetos habitacionais e expansão escolar.
Embora o volume de investimentos do PAC seja expressivo, pairam sobre as obras riscos de paralisação devido a irregularidades técnicas e financeiras. A denúncia de maior repercussão envolve a obra de extensão da Avenida Litorânea, que apresentou 10 irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU), sendo 8 de natureza grave que comprometem a lisura financeira do projeto. Há também questionamentos dos auditores do TCU sobre licitações nas áreas de saúde, educação, habitação e infraestrutura.
Na macroeconomia, estruturou-se o Programa de Obras Estruturantes, que engloba a requalificação de rodovias importantes, como a MA-203 (Estrada do Araçagi), e a ampliação da Avenida Litorânea. Paralelamente, buscou-se avançar na regularização fundiária para garantir a posse de terras a pequenos produtores, quilombolas e comunidades tradicionais.
A política fiscal do estado priorizou a busca pelo equilíbrio de contas para manter a capacidade de investimento mesmo após as perdas na arrecadação do ICMS. Diante disso, o estado obteve uma melhora em sua classificação de risco de crédito (CAPAG), subindo de nota C para B. Apesar da melhora fiscal, causa estranheza a ausência de projetos de transporte de massa estruturados (como VLT, metrô ou trens urbanos) na capital ou em Imperatriz, mantendo a população dependente de sistemas de transporte público precários.
A gestão também é alvo de denúncias de nepotismo, devido à presença de parentes do governador em cargos da administração pública estadual. O cenário motivou a intervenção do STF, que suspendeu quatro nomeações no primeiro escalão do estado. Na ocasião, o ministro Flávio Dino ironizou a situação, lembrando que “governo não é ceia natalina” para reunir a família.
Somam-se a isso suspeitas de venda de cargos no Tribunal de Contas do Estado (TCE) e na Alema, denúncias de tentativas de isolamento político do vice-governador Felipe Camarão, a polêmica construção de um aeródromo estadual em Colinas (cidade onde o irmão do governador é prefeito) e as suspeitas de superfaturamento nas obras da Litorânea. Neste último caso, chamou a atenção o fato de uma das empreiteiras vencedoras do certame pertencer formalmente a uma professora da educação básica que também trabalha com a venda de cosméticos. Diante de tais denúncias de práticas oligárquicas, o PCdoB recorreu ao STF pedindo o afastamento do governador, solicitação que acabou recusada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em março de 2026.
Industrialização e Sociedade
Segundo dados do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC), a produção industrial do Maranhão registrou crescimento acima da média nacional nos últimos períodos, impulsionada pela agroindústria, energias renováveis e metalurgia. O estado abriga cerca de 7.400 indústrias e registrou picos de crescimento industrial de até 10%, patamar muito superior à média nacional de 2,5%.
O parque fabril maranhense ocupa a 12ª posição entre os maiores exportadores industriais do país, com destaque para a produção de alumínio metalúrgico. A agroindústria também recebeu um forte impulso com a instalação da usina da Inpasa na região de Balsas para a produção de etanol, o que dinamizou a cadeia produtiva do milho. Houve ainda expansão nos segmentos de indústria de base, energia renovável, papel e celulose.
Devem-se registrar, contudo, dois fatores determinantes: em primeiro lugar, as principais plantas industriais maranhenses são voltadas quase exclusivamente para o mercado externo ou interestadual. No caso do alumínio, cerca de 25% é exportado e 75% é enviado para indústrias de transformação das regiões Sul e Sudeste (indústrias de latas, bebidas, automóveis e construção civil); com isso, o mercado interno local consome praticamente nada de sua própria produção industrial. Em segundo lugar, as grandes corporações que operam no estado (como Alcoa, Inpasa e Vale) são controladas por capital estrangeiro ou de fora do estado, não gerando um desenvolvimento integrado da indústria genuinamente maranhense ou nacional.
Salienta-se, ademais, que a expansão desordenada do agronegócio e das indústrias extrativas tem gerado severos impactos socioambientais. Áreas significativas do território maranhense encontram-se em situação crítica devido ao desmatamento e à degradação de recursos hídricos. O bioma Cerrado enfrenta um processo acelerado de devastação, e a contaminação do solo por necrochorume na região de Santa Inês ameaça diretamente os lençóis freáticos.
A situação na capital também inspira cuidados, com áreas de vulnerabilidade socioambiental como a comunidade do Rio dos Cachorros, afetada pela poluição decorrente dos processos de pelotização de minério de ferro e refino de alumínio, que contaminam plantações, rios e a base alimentar de pescadores e moradores locais. Praticamente todos os corpos hídricos de São Luís sofrem com poluição, e a degradação ambiental atinge mananciais e manguezais, quadro agravado por índices históricos deficitários de saneamento: menos de 16% do esgoto gerado na capital recebe tratamento, e menos de 50% da população conta com saneamento básico de qualidade.
Em suma, o modelo de desenvolvimento concebido pelas elites locais ignora as demandas básicas da população, que amarga baixos indicadores sociais e uma perda histórica de capital humano, expressa no forte êxodo populacional verificado nos últimos 30 anos.
As Esquerdas e as Eleições
“Após a vitória comum, talvez possamos receber algumas cadeiras no novo governo – mas sempre em minoria. (…) Como minoria no Governo, eles carregarão involuntariamente a responsabilidade por toda a infâmia e traição que a maioria, composta por republicanos puros, cometeu contra a classe trabalhadora, enquanto sua participação no governo paralisava completamente a ação revolucionária da classe trabalhadora que deveriam representar.” — Carta de Engels a Turati (1894)
Parafraseando Antonio Gramsci em suas análises sobre a questão meridional italiana, a burguesia e as oligarquias maranhenses submeteram sua população à exploração de mineradoras e indústrias transnacionais e ao agronegócio exportador, sem jamais apresentar um projeto de desenvolvimento local que fosse verdadeiramente inclusivo e universal.
Por sua vez, as forças de esquerda do Maranhão poderiam desempenhar um papel mais propositivo. O presidente Lula obteve cerca de 70% dos votos no estado em 2022, e os partidos de esquerda e centro-esquerda (especialmente o PT) contam com grande simpatia do eleitorado maranhense. No entanto, demonstram pouca vocação para o poder real: não formulam alternativas viáveis nem apresentam programas estratégicos para os problemas socioestruturais do estado — como a reforma agrária, mobilidade urbana, saneamento básico, saúde e educação pública. Limitam-se, em grande medida, a buscar o contato com as bases populares e movimentos sociais apenas em períodos de campanha eleitoral.
Grande parte de seus intelectuais e lideranças dedica-se a formular teorias ou a prestar consultorias para grandes corporações empresariais e grupos políticos dominantes. É comum encontrá-los em solenidades palacianas, mas raramente em assembleias e reuniões de comunidades vulneráveis.
Essa falta de inserção orgânica e de diálogo contínuo com a população faz com que o expressivo capital político gerado pela figura de Lula não se traduza em bancadas parlamentares fortes, resultando na paralisia de movimentos sociais e sindicais e na ausência de alternativas políticas reais para além do tradicional revezamento de oligarquias e da disputa por cargos na máquina pública.
O maior triunfo do neoliberalismo no Maranhão foi o de conseguir subordinar os partidos de representação popular e seus militantes ao papel de meras linhas auxiliares das oligarquias locais e dos interesses das grandes empreiteiras e corporações multinacionais.
Referências Bibliográficas
- ARAÚJO, Francisco José. Mandonismo e Cultura Política Pós-1985. UNESP, Araraquara, 2006.
- FERREIRA, J. K. Notas sobre o desenvolvimento do Maranhão. A Terra é Redonda, 16 set. 2022.
- GOMES, Stela Maria Araújo. Promessas e Distopia do “NOVO TEMPO” de Roseana Sarney nas Páginas do Jornal O Estado do Maranhão. UFMA, São Luís, 2019.
- IMESC. Dados e relatórios socioeconômicos. Disponível em: https://imesc.ma.gov.br/. Consultas realizadas de abril a junho de 2026.
- REIS, Flávio. Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão. EDUFMA, São Luís, 2007.
- WANDERLEY, Hevilla; ALIAGA, Luciana. Os Intelectuais e a Questão Nordestina. Revista Agenda Política, v. 09, n. 01. São Carlos, 2021.
- TRIBUZI, Bandeira. Formação Econômica do Maranhão – Uma Proposta de Desenvolvimento. São Luís: CORECON, 2011.
* John Kennedy Ferreira é professor de Sociologia na Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
