Por CC-PRC—

O Planeta expressa, pelo agravamento das contradições sociais básicas, os conflitos geopolíticos, os confrontos regionais e, como pior que o capitalismo pode oferecer à humanidade, o risco de terceira guerra mundial. Tal formação tem seu metabolismo assentado em ciclos duráveis de 40 a 60 anos, impulsionados pelo desenvolvimento nas forças produtivas e pelas lutas entre as classes, que reorganizam as condições da vida social. As Ondas Longas, detectadas por Kondratiev, compõem uma trajetória econômica para além das flutuações conjunturais e dos modismos intelectuais, destacando-se os movimentos de fundo que conformam crises e redefinem suas configurações históricas.

Para tanto, as relações sociais objetivas são condições indispensáveis à compreensão sobre o dinamismo mais profundo que molda a realidade mundial contemporânea. Não se trata, apenas, de mudanças tecnológicas ou de arranjos institucionais ocorrentes no topo e na externalidade político-cultural, mas da própria maneira interna pela qual a reprodução da vida e as lutas entre as classes ou suas frações, integrantes das contradições inerentes ao modo de produção vigente, atravessam, tencionam e condicionam cada etapa do desenvolvimento econômico.

I – O capital revela seus problemas e mazelas

A fase expansiva do capitalismo, imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, designada como “Época de Ouro”, exauriu-se no início dos anos 1970, inaugurando uma prolongada fase de estagnação, a mais longa verificada sob o capital. A velha política “neoliberal” e a hegemonia da chamada “globalização”, mesmo com a derrota do bloco socialista no final dos anos 1990 e a reconfiguração geopolítica em moldes conservadores, revelaram-se incapazes de reverter a paralisia nos centros imperialistas. O crescimento e uma nova fase de abundância, prometidos pelos ideólogos burgueses, foram eventos espasmódicos, em geral seguidos por crises locais ou regionais com intensidades e profundidades crescentes.

O chamado Consenso de Washington funcionou como um mecanismo de amortecimento temporário sobre alguns fatores de crise, mediante a desregulamentação, as privatizações e o “liberalismo” financeiro. Entretanto, o seu fracasso evidenciou os traços regressivos que persistiam e inaugurou uma fase de instabilidade. Chegou-se a um teto, exprimindo a transição para um novo estágio da longa fase estagnante, em que são evidentes os limites histórico-sociais do capitalismo.

A saturação de tecnologias centrais nas economias maduras, os índices de produtividade decrescentes nos setores industriais chaves, o baixo dinamismo das indústrias tradicionais desde os eventos de 2008, a pressão baixista persistente sobre as taxas de lucro, a migração de capitais para a esfera especulativa que media os investimentos produtivos, a utilização de novas fontes energéticas e a transição para matérias-primas antes ociosas, são elementos que permeiam os dilemas do capital.

Semelhante quadro configura um período de significativas alterações, marcadas pela instabilidade financeira recorrente, a elevação das tensões geopolíticas em torno de espaços estratégicos, as disputas por áreas de influência, a intensificação do controle sobre recursos – os naturais, os mercantis e os técnico-paradigmáticos –, o aprofundamento da exploração ou precarização das relações laborais, a ampliação da miséria, o aumento na desigualdade, a erosão da confiança em instituições ou consensos multilaterais, a nova corrida armamentista e a convivência constante com as permanentes guerras de pequeno, médio ou grande porte.

Assim, a velha ordem global e a divisão internacional do trabalho superada se encontram em processo de acelerada redefinição, com o declínio da hegemonia unilateral dos USA, a emergência de uma nova ordem multipolar, a decadência ou estagnação do Velho Mundo, a ascensão das economias asiáticas, o surgimento de fortes referências regionais, as transformações no mundo do trabalho e a elaboração de emergentes arcabouços regulatórios nacionais ou internacionais, a exemplo do Brics.

II – Os limites ao crescimento nacional e o projeto reacionário

Configurou-se, pois, no mundo e também no Brasil, um momento de bifurcação histórica, em que o próximo período está em disputa e sem contornos predeterminados. Ao contrário, o seu percurso resultará das mudanças nas forças produtivas e de profundos conflitos sociais, que tangem as escolhas tecnológicas, políticas e institucionais. A conjuntura da multifacetada crise acelera a transição que todas as forças atuantes intuem sensivelmente e abordam concretamente, cada qual a seu modo. Nesse quadro, as regressões despóticas e a supressão de conquistas sociais se combinam com episódios de ampla resistência, sugerindo oportunidades e alternativas contra-hegemônicas.

No contexto local, o propósito reacionário, articulado pelos conglomerados monopolista-financeiros – nacionais e transnacionais –, mobilizou bases sociais tradicionais e utilizou instrumentos institucionais para impor uma agenda ultraliberal e antidemocrática, nucleada pelo fascismo. Tal projeto encontrou resistência na recomposição de forças progressistas e democráticas, articulada em torno de uma aliança que, embora inorgânica, alcançou em 2022 a vitória nas eleições ao nível nacional. O acúmulo de forças alcançado pela frente ampla foi capaz de neutralizar as sucessivas tentativas de autogolpe e derrotar a Intentona de Janeiro.

Contudo, prosseguem a resiliência e a capacidade adaptativa da extrema direita. o que demanda a transformação da frente em um instrumento político semanticamente claro, teoricamente assumido, organicamente formal e politicamente estável, capaz, portanto, de enfrentar tanto o golpismo ainda vivo quanto as suas bases materiais, psicossociais e partidárias, defendendo e ampliando, assim, o regime democrático e os direitos fundamentais, inclusive os de cunho econômico-social.

A conjuntura nacional é marcada por forte e polarizada politização, que opõe o fascismo às forças democráticas, progressistas e nacionais, entre as quais as classes populares, em um quadro de relativa e atacada estabilidade institucional, combinada a um crescimento econômico anêmico. Os setores mais dinâmicos em termos de participação no PIB – notadamente, a indústria agropecuária altamente mecanizada e a mineração voltada à exportação – constituem justamente aqueles que menos vêm gerando empregos e estimulando cadeias produtivas internas complexas, capazes de gerar mais e melhores empregos, bem como elevar ao necessário o nível de vida entre as grandes maiorias.

Em contrapartida, os segmentos intensivos em trabalho – como a produção urbana, de bens materiais, especialmente os meios de produção – e uma parte expressiva dos serviços industrializados, permanecem incapazes de puxar um desenvolvimento autônomo e pujante. O padrão de crescimento limitado opera sob as regras tributárias rígidas e regressivas. O novo arcabouço fiscal, embora mais flexível e progressivo do que o antigo teto de gastos, ainda conserva o velho núcleo de austeridade e obsta urgentes reformas populares, incluindo investimentos estruturantes de grande alcance – em infraestrutura, inovação, industrialização, valorização do trabalho, novas tecnologias e políticas sociais –, necessários à mudança de patamar no desenvolvimento econômico-social.

III – Trabalho, precarização e direitos

A situação do mundo laboral no Brasil revela-se, hoje, paradoxal. O desemprego alcança patamares historicamente baixos, mas a informalidade na força de trabalho permanece em torno de 40%. A ampliação no índice de ocupados não vem correspondendo à melhoria de suas condições de atividade. Cresce o contingente de trabalhadores por conta própria, sob os rótulos hegemônicos de Microempreendedores Individuais e Pessoas Jurídicas, seja na informalidade tradicional, seja em plataformas digitais, todos marcados pela ausência de direitos trabalhistas, baixa proteção social e alta vulnerabilidade.

Tal realidade é, simultaneamente, compatível e funcional com a estratégia burguesa de reduzir custos, assim como a busca possível de rendimentos pelos trabalhadores. Todavia, resulta em atualização de velhos expedientes parcelários, novas relações gelatinosas e maior insegurança. Mesmo a expansão do emprego formal convive com a precarização salarial e a retração nos direitos, atingindo, particularmente, as camadas proletárias nos setores que mais geraram ocupações nos últimos anos.

Paralelamente, a produtividade encontra-se estagnada, o que impede a conversão de aumento na ocupação em ganhos duradouros nos salários. Em contexto de crescimento médio muito baixo na produção por hora trabalhada, a elevação da chamada “renda” per capita – usando a terminologia dominante – deriva antes da mais valia absoluta do que da relativa, isto é, maior participação populacional no mercado de trabalho em lugar da eficiência econômica. Portanto, acontece um movimento conjuntural de superexploração, cujos resultados e sustentabilidade são, respectivamente, danosos e limitados.

Alguns fenômenos são apresentados, superficialmente, como positivos, a exemplo da retração no contingente de jovens na chamada geração “nem-nem”. Todavia, esses fatos associam-se a inserções precárias e atividades informais: subempregos, bicos e plataformas digitais. Tais ocupações asseguram certos ganhos imediatos aos trabalhadores envolvidos, porém, não oferecem nem podem garantir as tão desejadas perspectivas de ascensão, estabilidade e direitos.

Ademais, a escala 6×1 – característica da formação econômico-social brasileira – mantém o elevado número de horas empregadas no labor contínuo, sem o correspondente aumento salarial. As consequências são os recorrentes problemas de saúde e a interferência negativa nas relações humanas, de vez que há uma redução no tempo reservado à família e ao descanso. A compressão geral do período reservado à folga se relaciona, frequentemente, à “plataformização” do emprego sob as exigências do capital e do mercado, exaurindo a vida do proletariado.

Quanto ao setor estatal, o movimento sindical rejeitou a PEC 32/2020, anunciando resistências. Já o Governo Lula – conforme o compromisso assumido na campanha presidencial e o primeiro esboço de PL sobre a gestão federal – tomou iniciativas rumo a uma reforma administrativa com eixos na colaboração entre órgãos públicos, articulação federativa, inovação digital, recomposição do quadro funcional por novas contratações, controle de resultados, relação com a sociedade civil, limite a superssalários e outras providências. Os trabalhadores seguem a discussão e, com suas entidades representativas, buscam preservar seus pleitos funcionais e os da população, inclusive a defesa do serviço público, com melhoria na sua qualidade, contra privatizações ou minimizações.

IV – A desigualdade como óbice ao desenvolvimento social

No plano social, após anos de piora nas condições de vida sob os governos conservadores, mormente quatro anos de bolsonarismo no Planalto, verifica-se um alívio relativo, associado ao retorno do aumento real no salário mínimo e de programas voltados à assistência social, como Bolsa Família, Vale Gás e Pé de Meia. Consequentemente, conforme o IBGE, a segurança alimentar nos domicílios aumentou de 72,4% em 2023 para 75,8% em 2024. Inversamente, a insegurança decresceu 23,5% no mesmo período, sendo que o número de pessoas, em milhões de atingidos, caiu de 8,47 para 6,48.

No entanto, persistem desigualdades históricas: a insegurança alimentar mais afeta mulheres chefes de família, com 59,9%, e pessoas pardas, com 54,7%. O Norte e o Nordeste ainda apresentam as maiores taxas domiciliares, respectivamente: 37,7% e 34,8%. Ainda mais gritante é a disparidade econômica de classe. As riquezas apropriadas no topo da pirâmide social permanecem amplamente preservadas, enquanto as políticas de proteção social, embora imprescindíveis, não conseguem alterar o abismo na concentração de riquezas, de propriedades e oportunidades.

A estrutura produtiva brasileira reforça tais limitações. As indústrias agropecuárias e mineradoras constituem setores internacionalmente competitivos, responsáveis pelos superávits comerciais e pela sustentação das contas externas. Todavia, operam como se fossem uma “locomotiva desconectada” do conjunto, pois, empregam relativamente pouca força de trabalho, concentram rendas e exercem forte pressão sobre o meio ambiente, além de apresentarem efeitos limitados na dinamização dos demais ramos.

De um modo geral, à exceção dos conglomerados monopolistas-financeiros, a indústria sofre com juros elevados, câmbio volátil, alto custo de bens produtivos, baixo impulso à inovação e crescente competição de produtos importados, resultando em perda contínua de complexidade e capacidade. Sem uma agenda robusta de industrialização universal e adensamento nas cadeias produtivas de mercadorias materiais duráveis, especialmente as que compõem capitais fixos e constantes, a economia brasileira tende a especializar-se na geração de commodities para o grande mercado interno e uma exportação sempre condicionada pela crescente disputa planetária.

O setor de serviços, por sua vez, cumpre a função de absorver a força laboral excedente, mas o faz, majoritariamente, por meio de empregos com má qualidade, alta rotatividade e pouca proteção social. Em síntese, o País combina uma inflação relativamente controlada, um câmbio mais estável e uma recuperação parcial de políticas sociais, com um tipo de crescimento inconsistente, ainda carente de bons empregos e sem uma redução enérgica na desigualdade interna.

V – Os sindicatos precisam reencontrar sua representatividade

Nesse quadro, o movimento sindical brasileiro atravessa uma profunda crise de representatividade, ao mesmo tempo em que recupera uma presença institucional relevante no alto escalão do governo federal. As centrais sindicais – com destaque à CUT, à Força Sindical, à CTB e à UGT – voltaram a exercer influência na formulação de algumas políticas públicas. Contudo, essa inserção não vem traduzindo-se em vigor orgânico nos locais de trabalho e na mobilização de massas.

A taxa de sindicalização, sobretudo no setor privado, segue caindo. Muitas entidades têm priorizado a prestação de serviços – tida como fim em si – em detrimento à mobilização coletiva, inclusive a agitação e propaganda junto aos representados, referente às condições de trabalho. Quando não, assumem um ativismo onguista. A contrarreforma trabalhista de 2017 provocou um abalo duradouro no sindicalismo, ao reforçar a primazia do negociado sobre o legislado e ao viabilizar acordos diretos dos patrões com grupos de trabalhadores, fragmentando a representação e enfraquecendo a capacidade proletária de negociação, além de retirar o financiamento das entidades.

A expansão da terceirização, da pejotização e do trabalho mediado por plataformas digitais agravou ainda mais a pulverização, recriando um semiproletariado sem direitos ou com direitos extremamente limitados. A chamada “uberização” rompe os pilares do sindicalismo de trabalhadores vinculados diretamente a um local de trabalho, relativamente estável, de jornada regular e com sociabilidade cotidiana compartilhada. O sujeito disperso geograficamente se depara com dificuldades na organização coletiva.

Na presente situação, ainda mais agravada pela ausência de respostas adequadas, abrangentes e criativas, por parte das entidades e dirigentes sindicais, emergem coletivos temáticos autônomos, associações debilitadas e grupos ligados em redes sociais ou aplicativos, com significativa presença em pautas específicas, também enfraquecidos pelo particularismo exacerbado. Apesar de poderem ter iniciativas positivas, tais formas não substituem o papel de instrumento coletivo, unificador, representativo e massivo, que os sindicatos, em princípio, precisam desempenhar.

A fragmentação também se expressa em nível institucional, mediante um elevado número de centrais sindicais, cada qual disputando base social, recursos e influência. Tal processo, que dificulta a construção de consensos, agendas e campanhas unitárias, beira o autofagismo. Mesmo assim, reivindicações importantes continuam sendo encaminhadas, como a luta para estabelecer direitos mínimos para os trabalhadores de plataformas digitais, que vem articulando as pressões de setores proletários precarizados com as iniciativas institucionais das centrais sindicais.

VI – A configuração política básica do Brasil

A extrema direita consolidou-se como força hegemônica no campo conservador brasileiro, em termos de capacidade mobilizadora na sociedade civil, predominância na agenda interburguesa e presença no debate público. Atua mais como movimento político-social de caráter permanente do que agremiação partidária, embora tenha penetrado no antigo PL, subordinando suas expressões tradicionais, dando sentido reacionário ao seu velho pragmatismo, transformando sua legenda em âncora institucional e inclinando a correlação de forças interna para o núcleo fascista que o tomou de assalto.

A derrota sofrida pelas tentativas de ruptura institucional, consubstanciada na Intentona golpista em Janeiro de 2023, bem como as condenações e prisões daí resultantes, resultaram em custos políticos significativos para os seus autores. A tais ônus somam-se ações antipatrióticas, de traição nacional, efetivadas por seus principais expoentes, que os desmascaram como agentes de uma potência estrangeira. Não obstante, o seu núcleo duro – articulado dentro e fora do território nacional por financiamento de magnatas extremistas, milícias territoriais, redes digitais, mídias alternativas e segmentos religiosos reacionários – mantém uma intensa atividade.

Ideologicamente, a ultradireita combina o hiperliberalismo econômico, o fundamentalismo religioso e o anticomunismo mimetizado em antipetismo, com a falsa retórica nacionalista, o militarismo de feição miliciana e teorias conspiratórias. Sua coesão é mantida pelo culto ao chefe Jair Bolsonaro e pela política reativa organizada contra inimigos identificados em pessoas, instituições e mitos – Lula, PT, STF, “globalismo”, “marxismo cultural” etc. –, longe de qualquer ação propositiva em termos de projeto nacional.

Paralelamente, a direita conservadora de inclinação democrática encontra-se em crise de identidade e cindida. Setores que, em momentos anteriores, cumpriram papel relevante nos movimentos pela redemocratização do País, nos estertores do regime ditatorial-militar, hoje oscilam entre aderir ao fascismo ou cooperar taticamente com o campo democrático-popular. Essa fração burguesa tende a ancorar-se em um discurso técnico-administrativo, valorizando a estabilidade institucional, a previsibilidade econômica e o respeito às regras formais da democracia liberal, mas também carece de projeto alternativo claro para o desenvolvimento nacional.

O chamado “Centrão”, amontoado eclético de expressões partidárias e parlamentares, atua segundo a lógica pragmática, fisiológica e clientelista, estabelecendo relações oscilantes com o governo ou com a extrema direita, de acordo com circunstâncias e interesses imediatos. Essa conduta confere à Câmara Federal e ao Senado autoridade de veto sobre agendas governamentais, incluindo reformas em benefício das classes trabalhadoras. Em contrapartida, as mesmas características e predileções particulares criam condições para disputas, alianças momentâneas ou ações conjuntas com os partidos populares, nas casas legislativas e na sociedade civil, com vistas às eleições de 2026.

VII – A situação do campo democrático e progressista

O campo democrático, mesmo após a vitória eleitoral de 2022 e a recomposição parcial das políticas públicas progressistas, permanece inorgânico, informal e na defensiva estratégica. A correlação de forças acumulada pelo conservadorismo em décadas, marcada pela iniciativa “neoliberal” e pela reorganização antilaboral no modo de produção capitalista, não foi substancialmente alterada. Mais grave ainda: nos últimos anos, a extrema direita ganhou apoio entre alguns setores populares, com a reorganização do fascismo e sua presença nos parlamentos.

Internamente, observam-se tensões entre, de um lado, a defesa de uma estabilidade institucional construída na “paz dos cemitérios” e com políticas sociais moderadas – frequentemente tomadas como fins em si mesmas – e, de outro, uma orientação que, em nome de uma equivocada “pureza” programática, assume posturas essencialistas, esquerdistas e aventureiras, frequentemente desconsiderando as mediações concretas, necessárias ao enfrentamento contra a extrema direita e ao alcance de uma nova correlação de forças, mais favorável ao proletariado e seus aliados.

O campo democrático e progressista, incluindo as forças populares que formam seu polo mais dinâmico, precisa reconhecer os impasses da conjuntura, atribuir às concessões uma natureza tático-transitória, concentrar sua crítica na extrema direita, desconstituir suas bases materiais e investir na mobilização de massas internamente à sociedade civil, combinados à intensa agitação e propaganda, além de pressões sobre os parlamentos e demais instituições estatais. Trata-se de articular o apoio combativo ao atual governo federal, e o combate ao golpismo, com a defesa de políticas públicas progressistas e a luta por reformas estruturais.

Entre as tarefas centrais destacam-se: a) reconstruir e fortalecer o caráter representativo, democrático e de massas das entidades que expressam os interesses dos “de baixo”, especialmente os sindicatos; b) construir espaços permanentes para promover a unidade de ação entre as instituições populares de um mesmo segmento, com plataformas e calendários comuns de lutas; c) formular um projeto de Brasil que combine as liberdades fundamentais, a soberania nacional, o desenvolvimento econômico-social, a valorização do trabalho e a responsabilidade ambiental.

O combate revolucionário e consequente ao fascismo requer, ainda, uma compreensão precisa no que se refere aos seus fundamentos e papeis histórico-sociais. Tal doutrina, expressão política das frações mais reacionárias do capital monopolista-financeiro em uma época de crise aguda, emerge inicialmente na sociedade civil, com movimentos regressivos, organizações paramilitares, redes de mobilização e aparelhos privados de hegemonia dedicados à confecção simbólica. Depois, transborda para a sociedade política, buscando capturar postos parlamentares, controlar governos e reconfigurar o regime político para transformá-lo em uma instância autocrática, diretamente antipopular.

VIII – O papel das massas populares na luta antifascista

Eis por que a disputa institucional, mesmo que seja necessária e fundamental, mostra-se insuficiente para conter a ameaça fascista em ascensão ou ainda sobrevivente como risco relevante. A chave para o seu enfrentamento reside na mobilização proletária e popular de massas, enraizada e organizada na sociedade civil. O fascismo se alimenta de frustrações acumuladas, de ressentimentos sociais e de crises materiais produzidas por décadas de políticas, sejam conservadoras, sejam meramente social-liberais, que intensificaram ou mantêm as desigualdades, a precarização, a insegurança econômica, a violência cotidiana e a desesperança no futuro.

Semelhantes fatores constituem o terreno fértil para um falso discurso antiestablishment e saídas demagógicas com base em projetos despóticos, particularmente atrativos não só para segmentos da pequena-burguesia sem perspectivas de ascensão social, mas também para trabalhadores precarizados, jovens em situação de desalento, parcelas vulneráveis da população e, principalmente, multidões desempregadas e na informalidade, com destaque ao lupensinato, ao fim e ao cabo atingindo também algumas camadas proletárias desorganizadas e sob a influência direta de seus patrões.

Tal capilaridade não pode ser abordada e neutralizada, apenas, mediante as políticas públicas pontuais, os discursos doutrinários abstratos e as articulações institucionais por cima. Demandam a ação organizada dos trabalhadores e suas entidades representativas, com destaque aos partidos e sindicatos, especialmente quando manifesta consciência de classe em formas superiores ou sensíveis, capazes de disputar o significado das insatisfações e convertê-las, seja em lutas reivindicatórias, seja em combates políticos gerais, seja em força emancipatória.

Nesse processo, a militância comunista e as agremiações populares desempenham papel decisivo. Compete-lhes organizar espaços permanentes de articulação e mobilização na sociedade civil: sindicatos, associações comunitárias, entidades populares diversas, movimentos territoriais, diretórios estudantis, organizações culturais e formas emergentes de sociabilidade no trabalho, no estudo e na moradia. O objetivo é reconstruir os vínculos sociais e políticos capazes de superar o isolamento, a dispersão e o esfacelamento que assolam largos contingentes do proletariado brasileiro contemporâneo.

Para consegui-lo, é preciso abandonar posturas principistas, sectárias, esquerdistas ou vanguardistas, que dificultam o diálogo com as maiorias, isolam a militância e transformam a política popular em nichos autocentrados. A composição heterogênea e multifacetada do proletariado brasileiro exige propostas que dialoguem com as suas experiências concretas, respeitem os seus níveis reais de consciência e possibilitem a formação de alianças amplas. Assim, no concernente às questões reivindicatórias, as pautas concretas e cotidianas – emprego, salário, rendimentos, direitos sociais, saúde, educação, segurança, transporte, moradia, proteção social, equilíbrio ambiental, combate à marginalização, luta contra os diversos preconceitos – devem assumir a primazia sobre as reivindicações particularistas, sem potencial unificador.

A combinação entre as lutas populares por demandas imediatas e a defesa do regime democrático, inclusive o apoio ao Governo Federal contra a extrema direita, constitui o eixo indispensável para constituir a política de frente ampla antifascista. Em um contexto de disputa aberta e radical, a defesa crítica de um governo democrático não é mera opção tática, mas uma mediação que repercute historicamente, pois amplia as condições favoráveis às lutas populares, impede os retrocessos autocráticos e mantém abertas as possibilidades de avanço social.

IX – A tática eleitoral, a frente ampla e o papel dos comunistas

Somente com a mobilização consciente e organizada das grandes maiorias – articulada a ações institucionais e construção de alianças amplas — será possível derrotar decidida e completamente o fascismo, alterar de forma duradoura a correlação de forças e abrir caminho para um projeto nacional de desenvolvimento soberano, democrático e socialmente progressista. Trata-se de recolocar as massas populares no centro da disputa política e afirmar a luta democrática como tarefa central no atual período.

A conjuntura política do Brasil, marcada pela permanência de uma extrema direita enraizada na população e eleitoralmente competitiva, demanda que o campo democrático-popular assuma e opere a lógica da frente ampla, única capaz de articular diferentes forças sociais e políticas, em defesa do regime constitucional e da soberania nacional, assim como pela construção de um novo ciclo de desenvolvimento com conquistas sociais. Nesse sentido, as tarefas político-eleitorais assumem um papel especialmente importante para reconfigurar-se a correlação de forças.

Conforme expressam as resoluções do Partido, é indispensável consolidar espaços permanentes de convergência política, capazes de ampliar entendimentos, formular plataformas comuns e fortalecer lutas unitárias, tanto na sociedade civil quanto na sociedade política. A defesa do regime democrático não se reduz à esfera institucional, pois a sua sobrevivência e efetivação depende de alianças sociais amplas, coordenação de movimentos populares e ativação das energias organizativas no mundo laboral.

Nesse processo, o Bloco Histórico da Revolução Brasileira – composto pelo proletariado das cidades e do campo, pela pequena burguesia urbana, pelo campesinato e pelos diversos setores explorados, oprimidos, marginalizados ou discriminados – deve assumir o papel dirigente. Tal tarefa não se confunde com uma hegemonia impositiva: realiza-se mediante a formulação de iniciativas políticas e programáticas capazes de unificar, mobilizar e colocar em movimento as amplas maiorias nacionais, articulando reivindicações imediatas com o propósito de isolar o extremo-direitismo e promover o progresso econômico-social, criando condições para se disputar a hegemonia em torno de reformas e transformações no sentido de atender às demandas das multidões.

O PRC orientará sua atuação conforme a política de frente ampla, desempenhando as funções de animador, articulador e mobilizador na construção de alianças enraizadas, dentro e fora do campo popular. No plano eleitoral, essa linha converge para um objetivo tático central imediato: derrotar a extrema direita nas eleições majoritárias de 2026, com prioridade clara na disputa presidencial, bem como eleger uma forte bancada democrática, nacional e progressista, no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas. A sustentação parlamentar do governo daí resultante é condição essencial para políticas que fraturem a reação hiperconservadora, barrem as tentativas de retrocesso e rompam os impasses multilaterais do Brasil.

O apoio a candidaturas precisa, portanto, subordinar-se à tática geral que propugna o fortalecimento das forças democráticas, nacionais e progressistas. As disputas proporcionais devem alinhar-se ao centro tático, priorizando a eleição de representantes comprometidos com a agenda democrática, soberana e promotora de avanços econômico-sociais. Eis por que a dimensão do sufrágio no combate antifascista é parte de uma estratégia mais ampla, que articula institucionalidade, mobilização popular de massas e acumulação de forças para além do calendário eleitoral.

Brasil, 22 e 23 de novembro/2025,

Comitê Central do PRC – Partido da Refundação Comunista

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