Na véspera do 1º de Maio, derradeiro domingo de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou durante seu pronunciamento à Nação, entre outras iniciativas de interesse geral, que o novo salário mínimo subirá para R$1.320,00. Em 2022 era de apenas R$1.212,00. No mesmo dia, pelo twitter, o cidadão que atende pelo nome de Ciro Nogueira ironizou a quantia, menosprezando-a e a comparando, sarcasticamente, com a remuneração recebida pelo presidente da Petrobras. O político tem o direito constitucional, inclusive como pessoa, de opinar sobre quaisquer assuntos que apareçam na sua cabeça. Mas, como anuncia o célebre ditado popular, “quem diz o que quer, ouve o que não quer”.

Se o ex-ministro-chefe da Casa Civil na “era” bolsonariana foi sincero – esclareça-se, apenas como hipótese de investigação psicológica –, seria forçoso concluir que desconhece as operações aritméticas elementares, ou que ficou desmemoriado. A diferença nominal de R$108,00 representa o ajuste pelo IPCA do ano passado, que chegou a 5,79%, mais o aumento real de R$37,83. Em 2023, computando-se o 13º, a elevação acima da espiral inflacionária será de R$491,73, maior 59,6% do que um mês de pagamento em 2022. Nada para o abastado burguês, mas relevante para quem recebe o mínimo. Importantíssimo foi o fim do método confiscatório imposto pelo mandatário anterior.

Para livrar o dono do Progressistas – o seu eterno “líder” – de ser visto como completo ignorante, seria melhor considerá-lo atingido pela paralisia na capacidade própria de armazenar experiências, edificantes ou tenebrosas, mesmo acontecidas recentemente. A síncope no raciocínio de um responsável pelo arrocho ao mundo laboral nos anos 2019 a 2022 – pelo visto, agora debutando como comediante – reforçaria uma tese: crise no hipocampo cerebral, centrada nos lobos e córtex, respectivamente, frontais e temporais. O resultado assumiria forma de alheamento agudo, que por sua vez poderia inibir o seu projeto político de sobrevivência. Talvez a desventura fisiológica explicasse o “apagamento”.

Infelizmente, para o recém-oposicionista e sempre negociante, nenhuma opção acima convence. O reacionário é apenas um empresário zeloso no que se refere aos interesses mesquinhos de sua classe. Tal é motivo que o faz interpretar o pequeno aumento real como estorvo aos seus lucros e temer até as tímidas medidas econômicas incrementadoras do mercado interno – aliás, vital para o próprio capitalismo do qual, mesmo bronco, é ideólogo e defensor. Como pragmático, porém, permite-se oscilar da caracterização a Bolsonaro como “fascista” em 2017, passando pelo apoio à candidatura de Lula no ano seguinte, até surfar sem pejo na onda regressiva que, após 2019, dominou a presidência.

Eis o crítico. A sua biografia, desqualificada no plano individual, é coerente no arrivismo e na lógica da prática parlamentar, incluindo-se as mais vexatórias. Sendo a política uma expressão das lutas entre as classes ou suas frações, contém as contradições: os atos altruístas, como na militância revolucionária, e a chafurdaria mais vil nas poças de lama disponíveis, como faz o detrator que menospreza o aumento; a dedicação aos interesses imediatos ou históricos do povo brasileiro e o amparo à hiperexploração proletária. Em favor do ilustre senador, diga-se: intui bem o que acaba sendo a política na concretude. Faltam-lhe, porém, as virtudes que sobram, metafisicamente, no conceito aristotélico.

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