Sem dúvida, eis que a publicação de um áudio em podcast gravado em 18/1/2023 – reverberado, posteriormente, pelos monopólios financeiros atuantes no ramo da mídia comunicacional – tornou-se uma espécie de pálido e fracassado revival da crise militar. Trata-se de uma intervenção do general Paiva – então com funções nas unidades ao sudeste e hoje nomeado ao posto maior das Corporações –, afirmando ser o “resultado” nas urnas, “infelizmente, […] indesejado […] para a maioria de nós”. Todavia, mais relevantes foram certas manchetes bombásticas e artificiais, redigidas para elevar o nível da contradição entre as FAs e o Governo Federal, bem como, atirando a mesma pedra em dois coelhos, tentar enfraquecer o prestígio externo e interno do comandante-geral do Exército. 

Após espargirem a sujeira nas redes informacionais, usando a cabeça das matérias, os divulgadores continuaram com seu “desinteressado” noticiário no rabo acessório, para demonstrar sua “imparcialidade”. As palavras proferidas em sequência, no mesmo dia, ficaram disponíveis somente para o leitor mais paciente. Sobre a eleição: “Nós participamos de todo o processo de fiscalização, fizemos relatório, […] tudo […]. A gente constatou fraude? Não”. Sobre o putsch de janeiro: coisa “infantil, besta, burra e irascível”. Sobre o ex-presidente Bolsonaro: desejou “instrumentalizar o Exército”, fortaleceu a “espiral de fanatismo que não se sustenta” e quase fez correr o “sangue na rua”. Sobre a disciplina: é irrelevante “quem está no comando; a gente vai cumprir a missão do mesmo jeito”. 

O palestrante, até para evitar uma pública suspeição referente aos subordinados, recusou-se a exigir a recolha dos smartphones, preferindo pedir, respeitosamente, que ninguém registrasse o seu pronunciamento: “eu tenho plena confiança naqueles que são meus comandantes; então eu peço que ninguém grave nada, até porque o que vou falar não tem nada de mais”. O cuidado se revelou inócuo, pois no recinto havia uma pessoa indigna da confiança em si depositada, que, deliberadamente, além de gravar repetidas vezes ainda fez o conteúdo vazar. Talvez para conseguir uma vantagem pessoal inconfessável. Também se faz possível a intenção de fazer recrudescer uma crise quase controlada, mas cujas determinações profundas permanecem vivas. Ou ambas, combinadas. 

Há múltiplas lições políticas na mais nova experiência intragovernamental. Os partidos vinculados ao campo democrático, nacional e progressista, bem como as principais autoridades federais, devem rechaçar os métodos desleais e os fins reacionários da intriga, relevando as impropriedades verbais surgidas na complexa tentativa de abordar concretamente os problemas da caserna em fase de solução, assim como valorizando as frases que defendem a lisura do pleito, criticam o golpismo e sustentam os compromissos com a legalidade. Ademais, urge pôr no foco do exame antes a prática do que o verbo impreciso, vez que o processo político afetou a iniciativa da extrema-direita, criando brechas para isolar os bandos fascistas e para restaurar o papel constitucional dos quartéis. 

O entrevero coloca em pauta velhas questões que os marxistas sempre levantam. No patamar estratégico, a única maneira decisiva de superar, cabal e terminantemente, o difícil problema de lidar com as tropas, institucionalmente nucleares do Estado acoplado ao metabolismo capitalista e à hegemonia burguesa, é reestruturá-las de alto a baixo, nos processos de revolução política, implantação de uma democracia popular e passagem socialista. Na esfera tática, mormente no Brasil atual e na conjuntura em curso, é crucial enfrentar os desafios emergenciais surgidos no ambiente castrense: liquidar o clima deletério das conspirações, consolidar o respeito às normas do regime democrático em vigor e, com base nos enunciados anteriores, reconstituir os critérios hierárquico-disciplinares. 

A propósito, merecem destaque duas medidas. Primeiro, a declaração do próximo presidente no STM, com aval do Alto Comando, endossando a decisão exalada pelo STF, mediante o ministro Alexandre de Moraes, que assumiu a prerrogativa de foro para julgar os militares participantes na intentona de 8/1/2023. Depois, a recente providência do mesmo general tematizado pelos mexericos, de suspender as Ordens do Dia referentes a 31 de março, que no Governo Bolsonaro exaltaram, invariavelmente, o golpe de 1964 e o regime ditatorial-militar então instalado no País, abarcando inclusive o terrorismo estatal. Portanto, as condutas efetivas significam mais do que as especulações feitas pelo ativismo errático e pelas candongas na oficialidade ou no jornalismo afeito à imprensa marrom. 

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